Hoje preguei meus olhos — por muitos segundos — neles mesmos, fixados ao espelho do banheiro.
Observei-os, por mais algum tempo, neles mesmos, desta vez em fotografias.

E procurei, em cada uma destas facetas oculares, por algo que me pudesse definir, perseguia o número… Porque toda vida que existe, existiu e existirá, carrega em si um número, o número. 

Por algum tempo, acreditei que a resposta cintilava no brilho castanho. Em outras fases, que jazia na treva pupilar. E, através de entremomentos vários, cri nos reflexos.

Fechei os olhos por um instante.
Tudo havia passado, e só eu continuava o mesmo: era Outro.


“… por que nossas vidas são, na maior parte do tempo, uma constante evasão de nós mesmos, e uma evasão do mundo visível e sensível.”

(T.S. Eliot – The use of poetry and the use of criticism)

Send to Kindle

velho do rio

Ouvi certa vez que a morte é o que atribui sentido à vida e o que pude compreender da verdade dessas palavras é que, de fato, a morte, como evento ou fato inexorável, implacável, realmente concede sentidos inúmeros a fatores vulgares e cotidianos.

Nos últimos dias, num torpor funcional, repeti inúmeras vezes, em ligações e mensagens de texto, a frase “Papai morreu”. E o peso da dessas palavras encadeadas apenas foi se intensificando com a repetição, a ponto de afetar diretamente minha postura e respiração. Quando amigos perguntam, retoricamente, como estou, por exemplo, me limito a dizer a verdade: “cansado”. Mas a morte tem também um jeito curioso de trabalhar em alguns casos (embora eu possa estar apenas atribuindo sentido a um fato corriqueiro como é a própria morte), de todo modo, para que isso faça sentido eu preciso voltar um pouco no tempo e desenterrar algumas situações.

Quando falo de papai, aqui ou cotidianamente, no geral, estou falando de situações que transitam entre o cômico, o trágico e o surreal. No entanto, a verdade é que minha relação com ele sempre, sempre foi intensa e extrema. Desde de minha adolescência alternamos entre períodos nos quais ou estávamos muito bem ou havíamos tido uma briga que resultava em pelo menos 1 ano de afastamento sem que nenhum dos dois arredasse o pé. Em algum ponto, e sem um pedido de desculpas ou qualquer trato de entendimento entre as partes, simplesmente ignorávamos o que havia levado ao rompimento e voltávamos a agir naturalmente. Não sei se porque somos diferentes ou parecidos.

Era normal que tomássemos um porre juntos num sábado, ouvíssemos suas serestas (que eu tanto detestava quando mais novo) e, em algum ponto do porre, ele começasse a declamar uma poesia de Augusto dos Anjos, Vespasiano Ramos, Djalma de Andrade ou Raul de Leoni. Nesse ponto eu precisava continuar de onde ele parasse, e a brincadeira estendia-se por horas.

Às vésperas do natal de 2014, dia 23, acho, tudo indicava que em poucas horas a sessão de sonetos começaria, até que estourou nossa pior briga. Minha reação foi despropositada para quem via de fora, minha justificativa, posterior, é claro, era bem simples: 30 anos de questões não resolvidas pelas quais simplesmente passamos por cima, ignorando os silêncios entre nós a cada tópico espinhoso, silêncios rapidamente contornados por um copo, por um cigarro ou por uma mijada.

Nessa ocasião, no entanto, entrei em estado de fúria, gritava, guturalmente, com uma voz que não era a minha, esperando que ele levantasse a mão para eu poder revidar. Naquele dia eu o odiei de uma forma como nunca havia experimentado. Fui afastado inúmeras vezes e voltei para urrar, com o dedo em riste “você não vai mudar nunca, você vai morrer bêbado e sozinho!”

A coisa havia sido séria e ambos havíamos cruzado fronteiras perigosas.

“Você vai morrer bêbado e sozinho!”, ele repetia constantemente para meu irmão, segundo soube.

Veio o casamento do meu irmão e nos limitamos a um comprimento frio e mesas distantes, não lembro se estava de moto, mas lembro que não bebi uma gota de álcool por medo.

Uns poucos meses depois, minha cunhada engravidou e me pus a pensar sobre como o fato de não entrar na casa dele afetaria qualquer possibilidade de proximidade com minha futura sobrinha, uma vez que meu irmão mora no mesmo terreno que meu pai.

A cada briga, mamãe, sempre da turma do “deixa disso” nesse tipo específico de situação, vinha com o papo de “se ele morrer de hoje para amanhã, você vai estar ok com isso?” ou “eu sei bem como ele é, mas é seu pai”, etc, etc.

Pessoalmente nunca dei importância a esse tipo de conversa, me considerava certo e isso me bastava, se ele morresse e não estivéssemos nos falando, não era responsabilidade minha.

Todavia, dessa vez, acho que por algum espasmo de uma maturidade tardia (e essa característica do “tardia” — e, muitas vezes, “atrofiada” –, é bem comum em nossa família quando o assunto é maturidade) me fez voltar atrás e, no início do ano, aparecer lá, acho que no aniversário dele e, como de costume, agir como se nada tivesse acontecido entre nós.

Fui de moto, logo, não bebi, e ele parecia feliz com minha atitude, insistiu para que eu voltasse com mais tempo assim que o meu trabalho permitisse, etc.

E, eventualmente, eu voltei, almoçamos, conversamos e, apesar de alguns silêncios incômodos, aproveitamos a companhia um do outro.

O fato de ter uma sobrinha a caminho, certamente influenciou minha decisão de dar um passo em direção a reconciliação (ou algo perto disso), mas lembro-me muito bem de uma noite em que, conversando com Lúcia, concluí que, mesmo não acreditando muito na possibilidade de sua morte em curto prazo, quando ela viesse, a morte, queria ter possibilidade de amá-lo ou odiá-lo e, para tal, precisava estar de bem com ele, ou as possibilidades seriam outras, como ódio ou arrependimento.

Ainda sobre aquela briga, bem, não sou do tipo que chora e, muitas vezes, aparento indiferença diante de situações, no mínimo, delicadas mas, diferente de todas as vezes em que brigamos, daquela vez eu realmente perdi as estribeiras e chorei em desespero intermitentemente por horas, não pela briga em si, mas acho que por ter gritado algo que sempre temi e acreditei: você vai morrer bêbado e sozinho. Não sei se vocês acreditam nisso de maldição de família, mas esse tipo de situação derradeira não chega a ser uma novidade entre os nossos. De todo modo, estávamos bem nos últimos meses, bem de verdade apesar dos silêncios, igualmente comuns entre os nossos.

Eu estava há três dias sem visitá-lo na UTI, e meu irmão insistiu que eu fosse na terça-feira, tendo em vista que, por razões profissionais e pessoais, eu havia me ausentado nos dias anteriores.

Ele vinha melhorando gradativamente, estava plenamente lúcido, já sem a máscara de oxigênio, reclamando da comida, rindo e brigando para sair de lá. Em resumo, estava bem e sendo ele mesmo. Eu contava sobre as vergonhas que o Rio vinha passando por conta das Olimpíadas e combinando de contrabandear mortadela para ele quando o horário de visita chegou ao fim. Avisei pra ele que precisaria sair e ele me pediu para ficar um pouco mais, até as enfermeiras solicitarem impacientemente minha saída oficial. Atitude comum ao longo da semana de UTI, ao menos comigo e com meu irmão.

Quando as enfermeiras finalmente me pediram pra sair, me dirigi para o lado direito do leito a fim de tomar a benção e quando beijei sua mão, ele se repuxou numa careta balbuciou alguma coisa apertando minha mão contra seu peito. Achei que ele fosse vomitar por conta dos antibióticos e puxei um saquinho que já havia deixado ali para isso, olhei para o monitor cardíaco (ele andava com uma taquicardia esquisita após a medicação) e vi o zero vermelho onde antes piscava 126.

Naquele momento soube que ele tinha morrido. Chamei os médicos e enfermeiros, e me retiraram de lá.

Tentei me enganar, liguei pra Lúcia e disse “acho que papai morreu na minha mão”, como se, de certa forma, eu tivesse alguma responsabilidade naquilo, embora ainda não soubesse bem qual responsabilidade poderia ser essa.

Andei desorientado, e tentei não demonstrar isso para minha madrasta ou para meu padrinho, que estavam do lado de fora me aguardando, me contive dizendo que ele estava bem mas no final da visita “passou um pouquinho mal”, mas que já estavam olhando. Tentei acreditar sem muita convicção que um fio qualquer houvesse se soltado também, explicando o zero no monitor, afinal, não era incomum que ele arrancasse os fios se coçando irritado.

O caso é que de algum modo eu sabia que ele tinha morrido, afinal, peixe morre pela boca.

Não saímos do hospital como de costume, disse que era melhor a gente esperar pra saber o que ele teve, só por segurança. Meu irmão já havia me ligado duas vezes para saber como ele estava e eu simplesmente não conseguia retornar as ligações perdidas. Titio, como de costume, me mandou mensagens pedindo novidades, desliguei a internet do celular. Desci e fumei, nada. Consegui me esgueirar para um canto e acessar a UTI por outro caminho, fui visto e vi que tentavam ressucitá-lo com massagens cardíacas. Espiar foi um erro, existe uma razão para retirarem os familiares da sala. Mas pelo menos confirmei minhas suspeitas e, mentalmente, comecei a ensaiar o que diria. Ele realmente havia morrido naquele momento em que me despedia da visita.

“Acho que papai morreu”, falei pra minha mãe e expliquei a situação perguntando como falar com meu irmão. Decidi que só falaria quando de fato tivesse a notícia. Esperei já me preparando mentalmente para dizer “papai morreu”, mas não precisei, ele mesmo disse quando silenciei.

Bem, papai morreu.

Não morreu bêbado ou sozinho como eu havia sentenciado… e ter estado tão errado nessa sentença quase me faz sorrir, no fim das contas, ele ainda provou um ponto. Quando temos sorte, a morte tem dessas justiças.

Mas papai morreu.

E apesar de ter transmitido essa frase inúmeras vezes essa semana, não é assim uma verdade tão absoluta.

Minha sobrinha é cara do meu irmão, que é a cara dele.

Nosso gestual é de uma mímese que beira o nível celular em alguns casos.

Meu irmão e eu nos policiamos, inconscientemente, para falarmos errado da mesma forma que ele falava (Santander fala-se Santo André, por exemplo).

Nossas vozes, a minha, a dele e a de Thiago são idênticas ao telefone.

E ainda tem toda a genética viva e o potencial genético quiescente.

Papai foi, ao mesmo tempo, egoísta e generoso, culpado e injustiçado, adorável e intratável, ranzinza e engraçadíssimo.

Papai foi a pessoa que me defendeu com as palavras “não liga para isso, não, acontece com todo mundo, aconteceu comigo semana passada” e a situação em questão era o fato de estar cabisbaixo por ter levado uma surra de uma prostituta (excelente história por sinal, um grande mal-entendido, depois ela se desculpou pelo engano).

Por mais conturbada e excêntrica que tenha sido nossa relação ao longo dos anos, fico feliz por ter dado o braço a torcer dessa vez, ter voltado ao seu convívio e por poder sentir, pacificamente, admiração por ele como pessoa e personagem.

Minha consciência está tranquila, apesar de não termos conseguido a cova que ele desejava, tivemos a decência de honrar sua memória envergonhando mamãe no enterro ao sumirmos da recepção e nos enfiármos no botequim para brindar a ele, e, indiferente aos olhares, tivemos a coragem de depositar uma garrafa de cachaça em seu caixão e, bem, sobre a vida dele, o bardo já cantava:

Send to Kindle

Andei pensando no meu falecido avô paterno (que Deus o tenha, embora eu duvide) e algumas lembranças do Velho Hermida Caolho — que epíteto!!! –, tão famoso pelas manobras cometidas contra crianças que tentavam roubar mangas de sua propriedade, tão aclamado por sustentar o título de  “mais temido aposentado do Centro ao Fonseca” e municipalmente conhecido na capital do Estado da Guanabara — a popular Niterói! — como: Caolho Hermida ou o Hermida do Olho de Vidro.
Ah, Niterói, essa maravilhosa província onde o velho e o novo, a tradição e a modernidade, o futuro e o passado habitam em harmonia.
Onde é possível ver uma numerosa família de porcos cruzando a principal avenida da cidade de madrugada (ignorante ao fato de que será caçada como se fossem javalis selvagens pelas vielas do Centro em meados de dezembro por mercadores de carne interessados na venda natalina de pernil).
AAh, NITERÓI! Onde uma Kawasaki disputa pista com pangarés no bairro mais rico da cidade, onde a estação de barcas precisa ser incendiada num motim de tempos em tempos para que o serviço seja normalizado, onde os motoristas de ônibus dirigem como motoboys (repect). Sim, minha gente, nossa Niterói.

Foi essa incrível cidade, meio Malibu, meio Simba Safari , num tempo em que ainda era possível, como provado por papai, tomar um bonde no Ponto Cem Rés e ir pilotando — sozinho — o veículo até o seu ponto (após se impacientar com a demora do maquinista em retornar do banheiro). Bem, foi essa incrível cidade que recebeu, de braços abertos, vovô e seu negócio pós-guerra: venda de motocicletas importadas.

Captura de tela de 2016-06-02 22-41-39

Vovô Tião chegou aqui vindo de longe, da distante Bangú, e se estabeleceu na rua da Praia, onde criou, da melhor maneira possível (e apesar dos perigos genéticos representados pelo casamento entre primos) os filhos: 6 de sangue, 6 de criação.

E se quiserem minha opinião sincera sobre o tipo de homem que vovô foi, ao menos para as crianças e jovens, eu digo, de todo coração: um grandessíssimo espírito de porco.

O OLHO DE VIDRO

De fato ele era caolho e, apesar da vizinhança divulgar maldosamente que o olho fora levado pelo Diabo ao fim de uma partida de poker, sabemos que foi um derrame que o estropiou. “Castigo”, diziam as mães dos pequenos (e a minha própria).  

Em momentos de crise, alguns enxergam oportunidade…

Imediatamente à perda do olho, vovô, determinado e sempre atendo às possibilidades com que a vida nos presenteia, encomendou para si um olho de vidro, este, propositalmente escolhido de uma cor um pouco diferente do olho vivo. Nada muito distante do original, apenas o suficiente para causar incômodo. Vovó foi contra a aquisição, mas ele insistia que “este nobre artefato lhe permitia participar de atividades lúdicas que seriam inviáveis caso ele usasse apenas um tapa-olho ordinário, ORAS”.

O pai de vovô foi chefe de segurança do Amaral Peixoto, além de delegado, capoeirista e, dizem “um sujeito perigoso” (do tipo que entrava na casa dos outros de cavalo para efetuar prisões).
Estou mencionando isso para situar o leitor sobre tipo de convidado que vovô recebia em algumas ocasiões: amizades políticas.

Em resumo, se vovô aparecesse de tapa-olho num jantar ou almoço, era certo de que o olho de vidro encontrava-se dentro de uma das panelas ou travessas. Sua vitória era absoluta quando o olho chegava ao prato de alguma senhora. Ao avistá-lo, ele erguia-se como um falcão (cego de um olho) e, com um guardanapo de pano e palavras como “com licença” pescava o olho de dentro do prato, limpava-o na blusa e o encaixava à órbita vazia. O toque especial era encaixá-lo torto (só metade do olho aparecendo) e piscar repetidamente para minha vó perguntando: “Irene, tá direito?”
Vovó era uma santa.

A MANGUEIRA E AS MANGAS

Ele e o cachorro “Comuna” (que também era caolho, mas não tinha um olho vidro), ficavam no quintal vigiando o muro sem serem vistos: ele na cadeira, Comuna no chão. As mangas arrancadas na parte de dentro do quintal eram contadas e colocadas num saco, as que ficavam voltadas para rua, eram deixadas como iscas, para as crianças. E, como todo peixe novo, elas mordiam a isca. Ao sinal de Comuna, o Velho Hermida Caolho, levantava-se e com um bambu que tinha, na ponta, umas cordas amarradas, e derrubava-as (as crianças, não as mangas. “Nessas mangas ninguém mexe”).

Ah, e quando um netinho de, digamos, 10 anos, pegava uma das mangas daquele saco e a recontagem noturna não batia? O chicote estralava, minha gente, ninguém era ateu.

A ARTE DA CAÇA

Não falemos de certo e errado. Falemos de como as coisas foram e, na minha família, em alguns momentos, as coisas foram duras. Quando vovô se tornou “ruralista”, em Monnerat, antes do negócio das motos (ou paralelo, não sei) a família presenciou uma dessas duras fases. Menos pelo trabalho, mais pela psique de vovô. Vovô acreditava, baseado na própria criação e no que entendia por mundo, que um homem deveria ser forjado até os 13 anos. Em outras palavras, aos 13 anos qualquer um, menino ou menina, já devia ser um “homem feito” e, para tanto, saber lidar com armas de fogo e caça.

Ao se mudar para o interior do Estado, vovô recuperou seu gosto pela caça e, para os filhos e netos, isso era novo. Imaginem pois a alegria de uma criança ao se proclamar homem, com o peito estufado, e se candidatar à caça. Imaginem também que essa criança era a mais nova e que as demais caíram na gargalhada. Mas vovô tinha um plano pro rapazola: “Tá, íngua, você pode ir caçar conosco”.

Captura de tela de 2016-06-02 23-07-02

A caçada para a criança consistiu apenas em carregar os corpos dos pássaros amarrados ao próprio corpo e sua descrição posterior e  emocionada daquele dia no qual um caráter foi moldado era algo como “e descia sangue, suor e lágrimas pra dentro das minhas calças que estavam caindo.”

Mas mesmo depois de o negócio da fazenda ter falhado, a lembrança saudosa daquele tempo marcou os filhos. Mamãe mesmo pode presenciar vovô e titio trocando tiros dentro de casa na tentativa de matar um rato atrás de um armário, isso porque, ratoeira, meus caros, é como rede de arraste, É COVARDIA.

ECOS ATRAVÉS DAS GERAÇÕES

“Criança, velho e doente não têm querer, é comer o que tem na mesa”

Vovô: “Criança não tem querer, continuem limpando os peixes, e só vão comer depois dos adultos, comer o que tiver pra comer, ouviu bem Paulo, pare de chorar, eu eim. A mocinha cortou o dedinho, é? ENGOLE O CHORO, ONDE JÁ SE VIU!”

“O velho me fez homem, ficava com os dedos cortados de limpar peixe e sobrava a cabeça pra comer, todo sábado era um inferno HA HA HA! Tempo bom que não volta mais!”
Paulo (neto), 30 anos, no enterro de vovô, sem chorar

Existia na casa de Paulinho, até pouco tempo atrás, um busto de vovô construído em cerâmica.

Send to Kindle

Existe algo que faço ao entrar em qualquer novo ambiente desde de muito cedo. Cumpridas as burocracias da etiqueta, tão logo me desvencilho dos anfitriões, preciso, num ímpeto de emergência, parar e olhar pelas janelas do lugar onde me encontro. Não importa se estou no térreo ou num banheiro cujo basculante é de difícil acesso, trata-se de uma necessidade pungente olhar para fora.
Quando criança, perdia horas espalhadas ao longo do dia, em silêncio, observando como as sombras se projetavam nos outros prédios e casas. Como a luz solar se mesclava com essas sombras, com as tintas e folhas das árvores. Despendia atenção especial aos círculos distantes traçados pelas gaivotas no peculiar azul, característico do céu da minha infância.
À noite, se mamãe houvesse se descuidado ao fechar a cortina, perdia o sono observando como a lua, em quarto crescente, traçava seu arco a fim de esconder atrás do prédio da antiga CERJ. Me fascina até hoje a maneira como sua luz transpassa as nuvens menos carregadas e a maneira como essa mesma luz se faz presente com muito esforço, num céu pesado e tempestuoso.
Observar as gaivotas nas manhãs de sábado era, de uma maneira que não consigo explicar, como ser surpreendido pela chuva de verão durante uma partida de futebol: a partida seguia, mais leve, com mais risadas, mais lama e menos peso. Deixava de ser uma disputa.

Hoje, ao fechar a janela do escritório para que ligar o ar-condicionado, observei brevemente as gaivotas que se mantém desenhando os mesmos círculos, no mesmo céu, provavelmente composto pelo mesmo azul.
Olhei para minhas mãos. Elas tinham pressa. Pressa de começar o dia produtivo, pressa de abafar aqueles fantasmas pois as sensações originais, há muito morreram e restam, senão vultos do que já foram um dia.
O cenário permanecia o mesmo, com exceção de dois prédios novos. Minha rua continuava a mesma. Talvez até melhor em alguns sentidos, como pelo fato de que hoje, nela, reside algo próximo de um espírito de comunidade.
Mas minhas mãos mudaram, envelheceram, atiraram-se sobre meu rosto e puxaram-me para a realidade.
Talvez eu tenha me tornado também um tipo de fantasma, sufocado…
Talvez, minhas mãos sejam, afinal, capazes de matar.

Send to Kindle

Sabe quando conhecemos alguém e, sem razão aparente, não suportamos a pessoa? Pois bem, minhas melhores amizades começaram assim.
Por exemplo, eu achava Rodrigo um sujeito bronco demais aos 15 anos. Sempre de cara amarrada, falando pouco, etc. Da parte dele, era recíproco, ele me achava um sujeito esquisito demais e etc também. Bem, da mesma maneira que ele continua bronco, eu continuo esquisito, diga-se de passagem.

Frequentávamos o mesmo grupo do colégio, o pequeno — e não tão seleto assim — grupo dos deslocados. Aqueles não levam muito jeito pra futebol e começam a fumar logo cedo pra combater o tédio.

Pra começar, antes de nos tornarmos amigos, Rodrigo já tinha ido a minha casa algumas vezes, todas por uma única razão: eu tinha um Nintendo 64 e Killer Instinct. Bem, ainda assim, mal nos falávamos até ELA acontecer. Ela, a bebida.

Não me recordo exatamente do que conversamos, da mesma forma como não me recordo de nada relevante sobre a festa em que estávamos na ocasião, pra ser bem sincero, só sei onde foi e quem eram os aniversariantes — os gêmeos–.  Mas o caso é que depois de bebermos juntos na festa, não desgrudamos mais: depois do evento, onde se via um, lá estava o outro.
Caminhávamos para a escola juntos e de lá íamos ao fliperama ou à locadora (a saudosa Mega Hire), jogávamos, fumávamos e cada um ia pra sua casa almoçar. Uma hora depois, lá estávamos, na casa de um ou na casa do outro, basicamente conversando, conversando e conversando o tempo todo. Às vezes acho que ao longo dos anos tivemos uma única conversa, ininterrupta que se estende até hoje, quase 20 anos depois. Nessa conversa não falamos sobre nada específico, jogamos conversa fora ao longo dos anos, e isso é uma coisa boa.

1
Provavelmente em 1998

Nossa amizade e nossas conversas impressionam até hoje pela sutileza, pela poesia, pelo carinho e pelo respeito mútuo com que nos tratamos.

Onze anos atrás, em 2004, trabalhávamos juntos (afinal, a gente se via pouco ¬¬), e, tentando provar um ponto, anotei dois diálogos  com a nobre finalidade de usá-los contra ele (acho que é o que estou fazendo nesse instante).

No primeiro, ele parece mais esperto do que eu, já no segundo, obviamente eu venço.

Eu: Porra cara , qual o nome daquela parada… tipo boeiro, mas… porra não lembro …
Ele: Boeiro?
Eu: Isso mesmo, essa merda de chuva deixa eles camuflados, pisei em um, e entrou minha perna toda, ainda passou um mendigo me xingando porque joguei água nele.
Ele: Você é um estragado mesmo, muito burro, não aguento mais ser seu amigo, você me puxa pra baixo ao invés de me jogar pra cima.
Eu: O mendigo disse: “seu viado filho da puta”, vê se pode isso, esse mundo tá muito errado.
Rodrigo: Você mereceu. Burro.

Uma semana depois, também na estação de barcas,  rolou o seguinte.

Rodrigo: Às vezes eu acho que eu falo feito um debiloide…
Eu: E não é só isso, você anda feito um macaco também. Porra, eu não sei nem porque sou seu amigo, você não me acrescenta nada.
Rodrigo: Também não é assim cara. Mas vamos lá jogar na loteria se não eu não durmo.
Eu: Ai caralho…
Rodrigo: Porra, a gente vai acabar sozinho no mundo com essa atitude.
Eu: Mas a gente vai tá junto, oras!

Eu poderia ilustrar nossa amizade com vários diálogos como esses, ou ainda relatar experiências grandiosas como quando fomos atacados por gansos no Campo de São Bento logo depois de Rodrigo ter conjurado um exército de mortos numa partida de D&D. Mas prefiro deixar umas poucas fotos bastante ilustrativas de nossas confabulações ao longo do tempo.

2
2003? – Pura sedução
3
2005? – “Esse ano foi foda” (Brandão, Rodrigo)
4
2008 – Colônia penal
6
2011 – O casamento de Juju e Roro
5
2012 – o fim do mundo
7
2015 – Jovens

Ah, mas qual o sentido de tudo isso, é aniversário dele? Não, longe disso. O caso é que acredito ser uma atitude positiva reconhecer bons momentos e exaltá-los, e se esses não são bons momentos, camaradas, sinceramente, eu não sei o que são.

Atualmente bebemos online, via hangouts.

 

 

Send to Kindle

Notícias do front: agora sou freelance. Isso é bom? Sim e não, depende. Existem tempos bons, tempos ruins, e existe uma playlist que fiz, chamada “Music for freelance”. Entre outras músicas, tem essa:

Boas notícias: Finalmente tirei meu porte de arma (carteira de habilitação). Não sou mais um fora-da-lei, ao menos não nesse sentido. “Ah, mas por que só agora depois dos 30? Falta de vergonha?” Não, o caso é que eu sou uma pessoa muito distraída. É normal que eu me distraia por uma década ou mais, dependendo do caso. Além disso, em outros momentos, oscilei entre ter tempo e não ter dinheiro, ter dinheiro e não ter tempo.

Acho que hoje estou conseguindo relaxar hoje (e isso é um acontecimento!), apesar da dor nas costas e de toda a tralha psicológica relacionada a ser produtivo, O TEMPO TODO.
Meu planos para hoje eram: adiantar os trabalhos que peguei, descansar as costas e calibrar os pneus da Roxanne (sim, minha moto tem um nome, o que é perfeitamente normal, afinal, ela faz parte das coisas deste mundo).
Relaxar é bom, acreditem (estou tentando me convencer).
IMG_20150425_212314

O que eu vou fazer de verdade: abrir uma cerveja, acender um cigarro, ouvir alguns CDs e ler um livro do Kurt Vonnegut, Armagedom em retrospecto.
Estou evitando esse livro há bastante tempo. É sabido que o KV trocava correspondência e tentava ajudar e conversar com qualquer pessoa que entrasse em contato. Certa vez fiz isso: entrei em contato. E ele foi extremamente humano e atencioso.
Sobre o Armagedom, sempre evitei esse livro por conta da introdução, escrita por Mark, seu filho. Pra mim, enquanto não lidasse com um texto póstumo, ele, o KV, se manteria vivo. Parece loucura, eu sei.

Antes de começar, porém, reli O homem sem pátria (recomendo a leitura no original, em inglês. Essa tradução em particular me incomoda). Que sujeito, o KV!
Ler a introdução do Mark falando sobre o pai e sobre seu último discurso (logo depois de ler o mesmo discurso e as opiniões do autor sobre ele) tornaram a morte de KV, de fato, algo real. Foi como lidar com a morte de um amigo. Mark torna o pai inseguro com a escrita, um pouco exibicionista e, por incrível que pareça, mais humano e ainda mais admirável.

photo22E por falar em pais, amanhã é dia dos pais. Papai e eu não estamos nos falando, acontece a cada dois ou três anos. Mamãe acha que eu devo ligar e me mostrar “superior”. Não faço ideia do que isso signifique. Não é como se alguém fosse superior por isso ou aquilo. A coisa é mais simples: é como qualquer guerra (ambos estão irremediavelmente certos).  Vivemos um período de paz armada. Ninguém muda ninguém.

Texto sem revisão ou segunda leitura. Relaxem.
 

Send to Kindle

76892_450550533177_565893177_5571250_523747_nSou tabagista e odeio o termo. Odeio quase tanto quanto odeio ser viciado. Viciado sério, desses que se definem pelo vício e que, quando imaginam a própria imagem, não conseguem vê-la sem um cigarro ou um cinzeiro por perto. Viciado do tipo que já acordou em muitas madrugadas precisando fumar. Degradante, eu sei. Não me orgulho.

Tentei adesivos e recomendo Niquitwell (acho que é assim que se escreve). Tive menos problemas com os efeitos colaterais com ele do que com o Niquitin. Também tentei o cigarro eletrônico, mas o fato do cheiro não incomodar as pessoas em volta só me deseducou. Fumava em qualquer lugar impunemente. Era como nos anos 90, quando ainda se podia fumar dentro de shoppings, restaurantes e coletivos. No fim de um ano e meio, já estava usando aquilo como um paciente de enfisema usa um balão de oxigênio. Me desesperava ficar longe o artefato, mesmo que por tempo limitado. Vai que, né?

Sou viciado em trabalho também, acho que, muito cedo, algumas escolhas definiram o rumo desses vícios e, mais tarde, tornaram ambos uma coisa só: eu.

Por exemplo, quando era criança, às 8 da manhã, no máximo, acordava com os murros na porta do quarto, sempre seguidos de “quem muito dorme, pouco aprende, levanta, Fabiano”.

Mas estou colocando o carro na frente dos bois. Deixemos papai e vovô de fora por hoje.

Comecei a fumar como a maioria começa: escondido, embora, no meu caso, inclusive de amigos.

Furtava um cigarro abandonado pela casa de papai, esperava uma oportunidade e corria para esquina para fumar. Não sentia prazer nenhum naquilo, mas ainda assim o fazia. Geralmente o fazia de noite, quando meus amigos também já tinham ido pra casa.

Com o passar do tempo, alguns amigos também fumavam e essa era a justificativa para o cheiro que impregnava minhas roupas e cabelo.

Lá pelos 14 anos, passei a, diariamente, esperar que minha mãe e meu irmão dormissem para, então, descer do prédio, correr na esquina e comprar um cigarro. Voltava pra casa, subia as escadas e tragava o Hollywood demoradamente. A essa altura, já sentia dificuldade em ficar sem cigarros.

Numa dessas, mamãe, que é insone e desconfiada, abriu a porta da cozinha e me flagrou no corredor. Como não é das pessoas mais pacíficas do mundo, já perguntou gritando que drogas eu estava comprando. Cheio daquele orgulho e dono de mim (como qualquer um aos quatorze anos), saquei o cigarro do bolso da blusa e e disse: “Isso que eu fui comprar. Eu fumo!”

Ela riu com escárnio e sentenciou: “Se você quer ser viciado, mantenha seus vícios, daqui pra frente você não tem mais R$1 vindo de mim.”

E naquela ano, meus amigos, em vez de “enfiar o rabo dentro” e ter o mínimo de humildade, comecei a trabalhar para manter meu vício.

Garçom de quiósque, operador de máquina de xérox, garçom num clube de mulheres idosas (outro dia falo sobre isso, eu era jovem, precisava de dinheiro e não sabia no que estava me metendo), cabista em obras, officeboy e qualquer coisa que contratasse um menor de idade disposto a ganhar muito pouco para bancar os cigarros.

Saí de casa com 16, dono da verdade e de mim mesmo, voltei com 17. Depois disso saí ainda outras vezes e voltei outras tantas. Cheguei a passar um pouco de fome, comendo dia sim, dia não, mas sem nunca recorrer aos meus pais e, mais importante do que isso: sem nunca deixar de ter ao meu lado um maço de pirulitos de metástase.

A conclusão dessa história ou o ponto que estou querendo provar é: “Antonio, você nunca foi dos mais espertos, mas pelo menos é tão coerente quanto uma árvore.”

 

Send to Kindle