“Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice, foi a época da fé, foi a época da incredulidade, foi a estação da luz, foi a estação das trevas, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós.” (Um conto de duas cidades, Charles Dickens)

Por mais que ruas tenham sido desviadas ou mudado de sentido, eu consigo me localizar em minha cidade natal. Apesar dos anos, das construções e das pessoas, — que, como os cães, também existem — , a orla segue no mesmo lugar e para as mesmas direções, indiferente às marés, aos nomes, à erosão e às ressacas, sempre violentas. Os bairros mantiveram-se numa ordem conhecida e, sem dúvida, o fato da cidade não ser assim tão grande ajuda a calibrar minha bússola interna e navegar por ela com a visão periférica.
Voltar para cá, especialmente nos últimos anos, se tornou um exercício no manejo de expectativas, uma constante corrida entre a urgência e a ansiedade e, depois da pandemia — se é que existe um depois — , uma gerência impossível de prioridades na qual me sinto a ponto de desistir assim que me aproximo da ponte pela qual a cidade se espalha ao redor da baía.
Já na cidade em si, não sei, me sinto alheio, descolado dela, um corpo estranho despojado em terreno familiar. Apesar disso, quando chego, chego sempre com alguma esperança de farejar um pouco do passado, uma sensação qualquer que seja, algo que me diga que ela, a cidade, está aqui, que o chão e a maresia a destruir as paredes ainda é a mesma que corroeu os aros da minha primeira bicicleta. Que o calor paralisante ainda é o mesmo que me fazia prometer fugir daqui o quanto antes. O mesmo calor que fazia meu rosto explodir em acne e insegurança. Portanto, quando chego, procuro por um vestígio daquela cidade onde nasci, corri e me costurei; um vestígio qualquer daquela cidade cuja estagnação me expeliu e para a qual ponderava, num delírio modorrento, voltar para morrer um dia cercado pelo desconhecido.
Tendo como ponto de partida unicamente a minha experiência, acredito piamente que, assim como temos um intervalo possível para a aquisição de linguagem, temos também um período para aquisição de uma cidade. Sendo essa uma hipótese razoável, é até possível que, como as crianças, imbuídas de tédio e instinto de sobrevivência, consigamos aprender a caminhar, nos localizar, e vez ou outra, até descobrir como as engrenagens de uma nova cidade funcionam superficialmente. Todavia, em dado momento, motivados por outro tipo de tédio e por outro tipo de instinto de sobrevivência, ou por urgência, pura e simples, somos tomados de arraste pela vida que vem e nos tira as ferramentas que outrora nos possibilitaria absorver e atribuir sentidos ao mundo com o corpo todo, sem o peculiar medo de ir adiante, ignorando por completo que, a cada passo, curva ou arbusto, existe apenas o trecho que repousa diante de nós.
E a matéria, os corpos e os nomes, todos antes impossíveis de se absorver e, por isso mesmo, constituições imutáveis do presente, passam a esvaziar-se através consciência que fazemos deles e, consequentemente, nosso deslocamento torna-se pesado, cheio daquela densidade peculiar de quem tenta caminhar debaixo d’água.
Todas essa sobreposição de imagens serve apenas para dizer que me parece impossível, depois de uma certa idade, absorver para si uma cidade, ou mesmo uma vizinhança, de maneira que ela se torne parte de nós e que, conosco, possa extinguir-se a cada segundo.
E talvez seja por isso que, quando retorno, reconheço alguma coisa no ar, mas essa coisa me escapa imediatamente.
E é por isso que, no caminho da vinda, como quem faz preparativos para uma procissão, escuto as mesmas músicas que ouvia quando ainda acreditava, e tento encontrar algo ali, um eco, uma sombra opaca que seja, da cidade ou da pessoa que há muito deixou de existir em mim e para o mundo, mas que, de certa forma, ainda caminha entre os vivos.
No meu caso, não sendo rico nem nada, a cidade foi o mundo todo e o horizonte visível por um tempo infindável, mas que, ainda assim, passou num sopro, um sopro quente, úmido e repleto de sal, mas apenas isso: um sopro, um bafo; e o mundo, o tempo e a vida se descortinavam diante de mim numa morosidade infernal, e o futuro seguia às vezes em aberto, outras, em suspenso, numa disputa desigual entre a falta de perspectiva, a indisciplina culpada e uma brisa agourenta eventual.
E eu volto, respiro, espero e quase acredito que a cidade vai se revelar para mim, que o passado vai se revelar para mim, que a chance que toda existência abarca, se erguerá às minhas costas logo que eu passar ou desviar o olhar. Mas eu volto, e ela é a mesma, e o passado é o mesmo poço tampado pela mesmíssima laje de pedra intransponível, e tudo segue mutável, da forma exata como me lembro, mas nunca da forma como eu imaginei que seria ou como de fato pode ter sido ou foi.
E é como se eu voltasse, bêbado e dormitando, na barca que cruza a baía levando os outros bêbados da madrugada, esperando que alguém se levante e grite qualquer absurdo cheio de verdade como “o grande deus Pã está morto!” e, através dessa sina a cidade pudesse aceitar finalmente se enclausurar, ocupando apenas o lugar que lhe cabe.
Enfim, sempre que retorno, não retorno para nenhuma dessas cidades porque, ao encarar as duas da única forma que posso, não vejo maneira de capturá-las pois ambas não são mais do que vapores: a cidade que vejo ao olhar pra trás, para meu passado, onírica, e a que via, do passado adiante, quimérica, amaldiçoada. Uma tão impossível quanto a outra e nenhuma passível de ser mapeada ou encaixada ao espaço pulsante de sua geografia.