A grande migração

E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem — e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente — e você com ela, partícula de poeira!”
 (A Gaia Ciência [Aforismo 341] – Friedrich Nietzsche)

Connochaetes taurinus calf por David Bygott

Após um hiato de quase de 3 décadas, Raphinha e eu retomamos contato uns poucos anos atrás. Contato esse que ganhou corpo principalmente a partir da repentina morte de Cristiano (o Baixinho) durante a pandemia. Desde aquela ligação desesperada na madrugada, nos comunicamos de forma assíncrona, majoritariamente através de mensagens de áudio. Nossas conversas tangenciam os votos anuais de aniversário, ou a comunicação de acontecimentos extraordinários como o nascimento de sua filha; outras vezes, ainda, nos falamos apenas para dizer que, por causa de um livro (como O último trem da cantareira), de uma música ou de uma foto, lembramos um do outro e do mundo habitado na infância, mundo que agora encontra-se espalhado através das pequenas ilhas de nossas memórias individuais e compartilhadas, mas que, ainda assim, quando conjuradas em voz alta, iluminam-se, emergindo em cores, cheiros e texturas, compondo um mosaico que não se limita a preencher um espaço determinado, mas expande-se como um caleidoscópio, repleto de fragmentos cristalizados de quando aprendíamos o mundo com nossos corpos diminutos, caindo de um barco, de um muro, de uma árvore, de uma bicicleta ou de um cavalo; capturando rãs, cobras ou preás; cutucando uma coruja morta com uma vareta; tentando nadar para a parte de trás das pedras na praia, apenas para pular da mais alta, a Pedra da Baleia; ou ainda, nadando com uma corda entre os dentes para puxar de volta o pequeno barco que era arrastado pelo sudoeste repentino antes do temporal que ele anunciava.

E apesar dos inúmeros cortes, suturas, fraturas e hematomas, o mundo não era, de forma alguma, hostil, assim como não era outro. Éramos parte dele, submetidos, de forma mais ou menos justa e sem estranheza, às suas regras, ciclos e marés, como os pássaros que dormem na chuva sem saber o que é a chuva, mas sabendo, através dos ossos, que ela vem e vai e que não há sentido maior para se extrair disso do que aquele comunicado pela queda repentina da pressão atmosférica ou pela súbita mudança do vento.

(Esquerda para direita) Eu / Baixinho / Junior / Meu irmão / Raphinha (meio à frente)

Esse mundo a que me refiro, vasto em dimensões e infinito em reentrâncias, cujas fronteiras (a ponte de madeira, o mar, o morro e a lagoa) guardavam seus 10 quarteirões — hoje completamente ocupados por casas, mas, àquela altura, compostos principalmente por brejos, matagais e entradas para a floresta morro acima, é um mundo perdido, extinto, inconcebível. Um mundo cujos dias não contavam com a mediação direta de adultos para seu funcionamento.
Acordávamos cedíssimo, meu irmão e eu (6 e 9 anos), e corríamos para casa de Baixinho e Raphinha (eles, com 6 e 8 anos), onde encontrávamos quase todos os adultos ainda dormitando. Batíamos nas janelas, invadíamos as casas e arrancávamos nossos amigos das camas se ainda estivessem deitados. E o contrário também ocorria, embora com menor frequência.

No momento seguinte, com um pedaço de pão com margarina mal mastigado pendente na boca, e meio copo de café, ainda queimando a garganta, ganhávamos a rua de terra batida (ou lama, dependendo do tempo) e puxávamos uma canoa para ir até ilhota, ou fabricávamos arcos e flechas com varetas de guarda-chuva e linha de pesca, caçávamos, limpávamos e fritávamos rãs; construíamos barracas enormes com os restos de árvores tombadas apenas para ficar lá dentro durante os temporais contabilizando as inúmeras goteiras desses ambiciosos projetos arquitetônicos.

Voltávamos para casa na hora do almoço (ou almoçávamos na casa de um ou de outro), engolíamos a comida, e já corríamos para rua outra vez para pedir a um vizinho que nos deixasse tomar banho em sua piscina nos dias quentes. Em dias chuvosos, invadíamos os fundos de uma casa desocupada para escorregar, barranco abaixo, por uma rampa de lama de 10 metros, em cima de uma prancha de bodyboard abandonada pelo último morador. Improvisávamos tirolesas usando mangueiras de borracha como cordas e um cabo de serrote como gancho e, sendo bastante justo, quando olho para trás, vejo que as chances de nos ferirmos gravemente eram muitas, no entanto a materialidade dessa porcentagem, embora real, nunca existiu. Na verdade, quase nunca. Acho que todos levamos pontos na cabeça, meu irmão chegou a ter um coágulo, e houve a ocasião em que eu precisei tomar 21 pontos na perna, mas fora isso, nenhum vestígio real da materialidade das chances que jogavam contra nós.

Não éramos as únicas crianças da região, tampouco do nosso quarteirão, e certas vezes, nem de nossas casas. O território (Tibau) dividia-se em 3 partes: “Lá fora”, que ia da mercearia do Paschoal até a Ponte; o “Canto”, que ia da segunda quadra depois da casa do Cabral até a 1001, e essa meiuca onde existíamos, que ficava entre os dois e que não tinha nome, pois não era outro lugar. E bem, nesse intervalo geográfico coabitavam, além de nós, os primos, primas, irmãos e irmãs de Raphinha e Baixinho, que eram muitos, além de outras crianças da vizinhança e as crianças mais ou menos sazonais, por assim dizer, como meus primos. E, apesar de ser desnecessário mencionar, nem sempre havia paz entre nós, meninos e beligerantes.
Batíamos, apanhávamos, encurralávamos, chorávamos e ríamos, mantendo, de forma mais ou menos natural, o frágil equilíbrio de nossas existências no decorrer desses anos de formação. Em alguma parte do caminho, é claro, passamos também a nos apaixonar e sofrer (ambos, quase sempre em segredo).

Eu me pergunto às vezes se tudo isso foi real. Me pergunto se é possível conceber a ideia de crianças nessa idade, sozinhas, e soltas assim, por tantas horas, voltando pra casa apenas para almoçar, tomar banho, remendar um machucado e dormir e isso quando essas atividades não se davam, sem aviso prévio, na casa de um ou outro.
É possível conceber a ideia de crianças nessa idade, sozinhas, e soltas assim, por tantas horas, num mundo onde a natureza e os silêncios não eram domados e nem ameaçadores, mas partes do mundo compartilhado?

1989 / 2023 / 2023 – o empilhado de tábuas que atravessávamos correndo finamente acabou, as garças ainda existem e a Ilhota parece mais selvagem do que no passado (o que, como o tempo, é uma ilusão).

Mas, como ocorre a cada instante, o tempo esvaiu-se imperceptivelmente diante de nós e um dia as coisas já não eram as mesmas. Os pais de Raphinha, Aluízio e Ivani, se separaram, não totalmente, eu acho, mas Ivani voltou pro Largo da Batalha e com ela, Raphinha, Leandro e Tatiana. Acho devíamos ter entre 11 ou 12 anos e, em decorrência de, de repente, não compartilharmos o mesmo espaço geográfico com a disponibilidade certa de antes, nos afastamos.

Eu me lembro de, num final de tarde (devia ser um domingo), ter caminhado até a praia sozinho, e estar sozinho ali ainda era de uma estranheza incômoda.
Como era comum naqueles meses, o rádio do quiosque, sintonizado na RPC, tocava sempre Save a prayer ou Vento litoral todo fim de tarde para fechar a programação. Não sei bem no que estava pensando quando me aproximei, mas sentei ali no calçadão, mais ou menos entre a prainha e o praião, de modo que pudesse ter alguma privacidade, afastado do sobe e desce da escada que dava acesso à areia, mas ainda próximo o bastante para ouvir a música.

Naquele momento eu soube que algo tinha acabado sem que eu percebesse, que a minha infância e meus amigos tinham ficado pra trás, movidos para outro lugar do tempo, que as coisas não seriam as mesmas e que, na verdade, já não eram, e também que eu já não era o mesmo. Me lembro da música, e me lembro da força que fiz para segurar um choro até minha cabeça doer num luto não elaborado pelo fim do mundo, do nosso mundo compartilhado, do meu mundo interior, do mundo todo, do mundo conhecido.

Mas, ao mesmo tempo, por mais estranho que fosse, eu sentia um orgulho, amargo, mas ainda assim, orgulho, por estar deixando a infância para trás. Era a percepção de um momento doloroso, impregnado de raiva e frustração por todas as coisas não ditas, fossem por eu nunca ter encontrado o momento certo, fosse por pura covardia. Coisas que jamais poderiam ser ditas porque o mundo já se desvanecia ao meu redor e olhar para qualquer coisa diante de mim, era como encarar o céu noturno, repleto de fantasmas que, numa espécie de miragem ainda cintilam, apesar de já se terem apagado talvez desde a infância do mundo.

De alguma forma, eu sabia de tudo isso sem saber nada disso, como os pássaros e a chuva.
E é bem possível — e até provável — que quaisquer traços do que eu experimentei por dentro não guardem relação com quaisquer fatos que tenham sido reais por fora.

E depois nos despedimos, e tudo naquele momento parecia ser de fato o penúltimo capítulo de uma história que se encerra.
(Notas para um naufrágio – Davide Enia)

Havia sido o meu primeiro momento de ruptura enquanto sujeito. Antes, e diferente daquele momento, a exemplo da separação de meus pais, as mudanças tinham pouco ou nada a ver comigo, mas agora, se tratava pela primeira vez de eu ter a consciência de que o mundo, de um jeito que ainda me era impossível de compreender, havia se desfocado: eu passava pois, por uma mudança de pele forçada que já havia se iniciado e que eu, que nunca fui dos mais brilhantes, só notei ao tropeçar nas escamas, já mortas e ressecadas, que jaziam no chão ainda meio agarradas à pele de baixo.
E se deu que minhas roupas, de um dia para o outro, deixaram de servir, e meus gostos mais honestos se tornaram amargos ao paladar e, ressentido e envergonhado por não ter sido capaz de ser o que não fui, me vi impelido a ser outro, inventar novos amigos, romper com o pouco passado acumulado que me havia magoado tanto com seu distanciamento conclusivo, gradual e repentino.
Iniciou-se assim minha primeira grande migração, e esperava, a partir dela, ser outro, menos covarde diante de mim mesmo, mais duro ou, pelo menos na aparência, artificialmente endurecido, trajando fatos fabricados e gostos flexíveis, cujos limites seriam apenas a cisão, ou seja, que esses novos gostos não roçassem nem a sombra que eu tentava despistar, e sobre qual caminhava ainda, com raiva e receio de ser descoberto.

E essa pele, e essas roupas, elas duraram o tanto que puderam durar, e ao fim de mais ou menos 7 anos, me vi preso a mim e àquela sombra jamais despegada. Era ainda covarde, era ainda incapaz de dizer as coisas que não disse na véspera, era ainda eu encarando a sombra que denunciava a mim quem eu era. E com o reconhecimento dessa percepção, chegou o momento de fugir novamente, agora com mais ou menos 21 anos e me acreditando formado, dono de um fôlego mais controlado e detentor de movimentos mais viperinos (cria).

Ao contrário da primeira fissão, busquei discrição ao me distanciar, silenciosamente, pelas costas de todos, como quem sai de uma festa à francesa, mas percebe, tarde demais, que arrastou a toalha da mesa ao passar, derrubando copos e garrafas e, em vão, busca agir naturalmente enquanto se vê obrigado à tortura que é despedir-se de todos, um a um, e sobretudo dos anfitriões, com um “desculpe qualquer coisa”, seguido de um sorriso amarelo de consternação e tabaco.
E com esse sentimento de vergonha arrastada e com a boca virada numa careta de deboche e autocomiseração, me vi mais ou menos livre de mim, saindo pelos fundos, para adentrar no que seria, acreditava eu, ingênuo, o tempo em que me habitaria enfim. O grande círculo que se completaria em meu epílogo.

Contudo, um futuro previsível está tão longe de ser um futuro possível, quanto as próprias ideias de futuro que um jovem de vinte e poucos anos pode ter, se refletem às probabilidades de seu cumprimento efetivo.
Me achava outra vez muito distante da autoimagem borrada que tentei esboçar ao longo da vida e, ao final de mais esse ciclo, me vi impiedosamente arrancado, antes mesmo de suspeitar que ele havia se findado. Já não era mais nenhum jovenzinho, e minha cara, pregada, já era a mesma cara que carregaria até seu já iniciado desvanecimento. Me encontrei então despojado, sem uma pele para trocar e sem gostos para barganhar, e o que me restou foi abandonar atrás de mim um nome, Fabiano.
Entretanto essa história do nome, por si só, é uma história longa, que sim, poderia ser resumida em poucas palavras, sem dúvida, mas isso a tornaria ainda mais ordinária. É melhor não mexer com isso agora e me ater às mudanças e aos ciclos. De todo jeito, tratou-se de um evento encerrado em si mesmo, de um evento sobre o qual não sei se consigo escrever ainda, dar-lhe um corpo que o torne material, cristalizado, dependurado aqui (como um enforcado talvez?).
Em todo caso, o preço foi esse: abandonei meu nome e o ato me pareceu uma troca razoável quando pesado na balança, afinal, sem um nome deixamos de fazer parte das coisas desse mundo, e isso era, diante da estrada adiante, o que eu almejava: estar suspenso do tempo e da realidade.
Porém, nada se deu como o esperado, pois a verdade é que as coisas desse mundo existem antes de seus nomes (ou apesar deles); existem ainda que não em oposição ao outro (ou mesmo a partir do outro).
As coisas desse mundo, elas existem como existem as dores físicas, que apesar de contarem em escalas detalhadamente descritas para medições tanto de tipo quanto de intensidade, não dizem coisa alguma aos indivíduos submetidos a uma ferroada, independente do quão bem descrita ela seja.
E o que se deu foi que, mesmo destacado de mim e do meu nome, segui e errei, indo e vindo, tentando apagar o que de mim já acreditava restar pouco, em suma, tentando, através de um processo longo e semiconsciente, apagar de mim a memória que ainda guardava a respeito de toda essa invenção.
Só que dessa vez errei não para fugir, ou para me reinventar numa versão, quem sabe, mais apropriada, ou aprimorada ou, acima de tudo, mais próxima do que poderia ter sido.
Não, não, foi apenas para tentar diluir todo o lodo que eu mesmo havia juntado ao meu redor.

Como em todos os ciclos migratórios que cruzei, esse durou quase uma década. Quase uma década de penitência autoinfligida, quase uma década de abusos variados. Eu levei quase uma década me arrastando apenas para sair do outro lado e encontrar, à margem, a mim mesmo, o mesmo, sim, coberto de lama e debilitado, mais resignado e vestindo apenas algumas certezas a respeito da própria pessoa.
Encontrava-me ali, diante de mim, sombra pregada aos pés, exatamente como naquele primeiro momento: Adão expulso, Caim errante, Abel morto (?). Mais uma vez, diante do dia que mudaria tudo, como o dia que antecedeu a primeira grande migração.
Estava lá agora, respirando ainda um pouco daquele ressentimento que nutri por mim mesmo e, nesse momento, se ele houvesse de fato sido real, talvez eu tivesse encarado minhas mãos tentando reconhecê-las mais velhas, e dissesse, talvez, a única coisa possível: “Foda-se essa merda. Que inferno”.

Eu havia gastado o que?, quase 3 décadas da minha vida tentando e desistindo de me ver pelas costas, pelo outro; fosse quem fosse o outro, fosse eu o outro, fosse ninguém o outro.

Por mais frustrante que soe, a verdade e a clareza dessa visão me acalmaram e o verme que me roía as entranhas, ao que parece, saciou-se.
Se avizinhava o outono.

E quase 10 anos depois, no último 22 de março, falando com Raphinha para lhe desejar um feliz aniversário, ou no domingo retrasado, gravando uma mensagem para Rodrigo sem muita certeza de que horas são na Nova Zelândia, ou ainda, agora, especialmente agora, segunda-feira, 15 de abril, às 22:50, enquanto me levanto da cadeira para ir deitar.
Agora, ao me deitar tentando não acordar Cíntia… agora deitamos todos: Caim, Adão, Abel, a águia de Zeus empoleirada, a cachalote que incessantemente percorre os mares todos os anos, ano após ano, à perfeição circular do estoicos, na superfície e nas profundezas impossíveis; e também todos os deuses cujos nomes eu já soube, bem como aqueles cujos nomes são ainda o crepitar do fogo e as rajadas de vento. Agora deitamos todos, rumo à extinção e ao esquecimento da noite, e enquanto nos for dado lembrar o amanhecer, deitaremos à espera do inverno.


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