
Cima esq.: ? / Lúcia / Dinda / Dindo / eu. | Baixo esq.: Paulinho, Papai, Thiago.
Ao longo dos últimos meses me surpreendo frequentemente pensando em meu primo, Paulo. Paulinho, pra ser mais justo, uma vez que, como eu, por ter o nome do pai, arrastava o peso do diminutivo.
Meu primo e eu começamos a conviver por volta do meus 8 anos de idade após termos, meu irmão e eu, voltado a ter contato com papai aos finais de semana, passado um hiato pós-divórcio de mais de ano, e durante o qual, vim saber anos mais tarde, papai alternou seus dias entre orgias e depressão, pulsão de morte e de vida, o que faz todo sentido se tratando dele.
Paulinho morava na rua de trás e estava sempre lá em casa aos sábados. A relação dele com papai tinha muito mais de uma relação entre pai e filho do que, por exemplo, a que meu irmão ou eu jamais alcançaríamos; e, honestamente, isso nunca me enciumou. Sendo ele uma das poucas pessoas a me tratar como um indivíduo, evitando a demasiada infantilização e o deboche corriqueiro, e por frequentemente dedicar seu tempo a ouvir e responder minhas perguntas mais estapafúrdias, passei a enxergá-lo como um irmão mais velho, um modelo a ser seguido e, isso evoluiu para que eu, em poucos meses de convívio, quisesse ser como ele.
Apesar da obviedade dos fatos, isso não se deu apenas por meu temperamento dócil, que, como já escrevi, era muito próximo ao de um cão, mas por motivos diversos que, elencados, seriam:
- 1) Ele “tinha saído de casa aos 16 e trabalhou numa fábrica de cerveja” (e eu ainda considero isso bastante impressionante);
- 2) tinha um segundo emprego onde trabalhava diretamente com computadores no extinto Proderj (estávamos na década de 80 e, nessa época, os computadores eram caixas portentosas);
- 3) sabia se virar com tudo (nem sempre da melhor maneira, é verdade…) como: “consertar” a moto, ajeitar pranchas de surfe, matar e limpar qualquer tipo de animal, atirar, etc.
Certa feita, chegamos a iniciar a montagem de um bugre, peça por peça, no quintal dele (levou uns 2 anos para ser concluída). Enfim, coisas que me impactavam e que tratei de tentar aprender o mais rápido possível (falhando em praticamente tudo); - 4) O mais importante àquela altura era que ele tinha 4 cachorros e me deixava dormir com eles. Essa possibilidade de me aninhar aos animais fez com que eu praticamente me mudasse para sua casa, mal dormindo na de papai.
Quando crianças, nunca tivemos autorização para sonhar ter qualquer bicho, e o que se dava quando nos apegávamos a algum animal que estava por lá de passagem, era a tristeza certa, porque aquele, bezerro, porco, pato, coelho ou galo, seria abatido. Meu pai dizia: “não coloca nome” e Paulinho assentia, me prevenindo como se já tivesse passado por aquilo e aprendido alguma coisa a respeito. Esse meneio de cabeça de Paulinho, era uma confirmação que eu buscava sempre que alguém me afirmava algo, e me causa ainda espécie esse fato curioso sobre o raciocínio de papai acerca dos nomes se fiar num empirismo quase filosófico, como o de Victor Frankenstein: se aquilo tiver um nome, se tornará parte das coisas do mundo.
O caso era que, apesar de sonhar ter um cachorro, até atingirmos 14 ou 15 anos, ocupávamos a base da pirâmide social e dentro da minha família, e para essa base, querer e poder eram antônimos na maior parte dos casos. Dizer não para uma criança, fosse ou não algo razoável, era o papel de um adulto, a negativa independia da pergunta. Não quero me demorar nisso, até porque escrevo sobre Paulinho, cuja voz tive dificuldade de lembrar outro dia e isso sempre me apavora, esquecer a voz de alguém, mas a título de recordação e documentação da minha memória, que é cada vez mais falha, acrescentarei alguns exemplos sobre a casta que ocupávamos enquanto crianças:
— devíamos matar (quando era o caso) e limpar os peixes, servir os adultos, esperar que desocupassem a mesa, retirar os pratos e, só então, comer (no geral) as cabeças desses peixes (quando sobravam peixes inteiros, acho que rosnávamos uns para os outros). Quero deixar claro que não era a regra, mas aconteceu o bastante para ficar impresso na minha memória. Essa espera pelo almoço era longuíssima.

Tio Zé / Paulinho / Tio Paulo em um almoço longuíssimo.
Voltemos.
Paulinho não tinha filhos mas tinha os cães e, inclusive, lembro muito claramente de uma vez perguntar a ele o porquê de não ter filhos, ao que ele respondeu muito espontaneamente: “cachorro é mais fácil”.
Outro diálogo marcante, acho que em 1995, logo depois de ter ficado com uma menina no carnaval e de estarmos namorando por telefone: “primo, eu não sei o que vou fazer, ele mora muito longe, lá em Botafogo” (eu tinha 13 anos e Niterói e a baía de Guanabara ainda eram meu mundo conhecido). “Besteira, longe é Minas e eu ia de moto depois do trabalho pra ver uma namorada… Quer dizer, fui uma vez, era muito longe, não voltei.”
Quando chegava na casa de papai às sextas, tirava o uniforme, comia alguma coisa, brincava na rua com as outras crianças, tomava banho e corria pra casa dele para esperar ele chegar do trabalho.
Assistíamos filmes de terror (lembro de Hellraiser e Uma noite alucinante), Arquivo-X (posteriormente) e Millennium.
Essa rotina durou dos meus 9 até uns 12 anos, quando comecei a querer passar mais tempo com pessoas da minha idade. Mas mesmo durante a adolescência, nunca deixei de confiar nele ou consultá-lo. Desde conselhos amorosos (eu que mal havia compreendido o conceito de “beijo de língua”) até brigas com meu pai (seu conselho era sempre: “espere chegar aos 16 e se revolte”).
Quando rolou o caso do ET de Varginha a gente foi lá e tudo mais. O local de captura estava impregnado de um cheiro de amônia horrível. A ideia era filmar ovnis mas Paulinho acabou encurralado por uma família de lobos guará enquanto esperávamos discos voadores. Isso foi filmado e, ainda bem que eu hesitei em largar a câmera e pegar o revólver no porta-luvas.
Paulinho era muitas coisas, algumas inimagináveis à primeira vista: romântico, fã de ficção-científica, exímio jogador de tarrafa, surfista. Outras muito fáceis de se ver de cara: parceiro, turrão, rancoroso e sensível. Já adulto, conheci um lado dele que nunca imaginei existir: inseguro (pois apaixonado).
Como todos lá em casa, bebia muito, o álcool era o hobby principal dos homens. Nada de arte, filmes, ou qualquer outra coisa. Álcool e um eventual acompanhamento (violão, rádio, piadas, poemas ou uma briga).
Quando eu já estava com uns 20 anos, Paulinho se separou da mulher, Fatinha, com quem vivia desde sempre até onde eu sabia, e saiu de Piratininga em determinado momento.
A gente tinha acabado de reformar “a moto”. Fatinha, com raiva, “vendeu” a moto por uns 500 reais. Como eu senti raiva. Paulinho dizia: “deixa ser, deixa ser” (mas também estava puto).
Um par de anos depois, Fatinha, que continuou sendo nossa vizinha e nunca superou a separação, descobriu um câncer e definhou rápido, tanto pela doença, quanto, acredito piamente, pelo ressentimento. Foi algo muito ruim de acompanhar, ela estava rancorosa, raivosa e, apesar de disfarçando, apavorada diante da morte e da solidão. Passava o dia bebendo e sempre que me via, falava mal dele sem parar. Ainda assim, ele nunca a abandonou e mesmo a troco de agressões físicas e tentativas desesperadas de causar um acidente de trânsito (como puxar o volante na direção de uma ribanceira, limite de uma ponte, ou contramão), ele nunca deixou de levá-la e acompanhá-la no tratamento. Até o fim.

Ele me ensinou a surfar, a andar de moto, de cavalo, deu de ombros quando me viu fumando escondido e me disse que chocolate era única coisa que encobria o hálito. Nunca aprendi a tarrafear direito. Na verdade, acho que todas as coisas que eu poderia ter aprendido, só aprendi a atirar, matar e limpar alguns animais e andar de moto. No resto, fui medíocre.
Depois de descreve-lo aqui, notei que compartilhamos uma série de características, provavelmente por herança ou mimese, embora, diferente dele, pra tudo me faltou coragem ao longo da maior parte da vida, e hoje, em 24/05/2025, segue faltando. Isso eu não consegui aprender, acho. Minha coragem sempre repousou num futuro improvável. “Quando você abaixa a cabeça uma vez, é difícil levantar” (ouvi isso dele várias vezes). E isso não se referia só a situações práticas, como baixar a cabeça para um assédio de um chefe, mas para a vida e para os dias, de forma mais ampla.
Depois da morte da Fátima, cursando faculdade noturna e me mantendo em 2 sub-empregos, nos afastamos novamente, ele não voltou pra Piratininga, vendeu a casa assim que pode, pela primeira oferta. E, embora eu sempre passasse no trabalho dele para fumar um cigarro na escada, tomar um café e saber um pouco das coisas dele, não tínhamos mais o tempo que me faria tanta falta mais tarde.

Fátima / Paulinho / tio Zé
O que notei foi a seguir, foi que ele parecia mais focado do que nunca e alguma coisa no olhar dele parecia ter se acalmado finalmente. Ele já não bebia tanto, estava vivendo feliz com a Rose e parecia, pela primeira vez estar em paz consigo mesmo. Eu via Paulinho como urso que nunca hibernava. Era estranho vê-lo tão, não sei, sereno? Acho que ele não esperava mais nada depois da separação além de ir tocando a vida. Sem dúvida ele não esperava se apaixonar aos 40 e poncos anos, e se encontrar num amor tão oposto ao que teve com Fátima. Que fique claro, eu amava Fatinha, ela era parte da minha relação com Paulinho desde que eu me entendia por gente, mas ela era complicada, pra dizer o mínimo… Apesar de sempre ter se virado por conta própria, acumulando empregos e estudando quando conseguia, ele nunca havia sido uma pessoa focada, nunca teve um plano a longo prazo e, na maior parte da vida, foi se virando com o que era possível. Temos isso em comum, consigo ver hoje, com 40 e poucos. O caso é, naquela época, pela primeira vez, parecia existir um caminho diante dele, um futuro previsível.
“…a vida encontra formas de fazer previsível nunca acontecer e o imprevisível se tornar a sua vida..”
(Appaloosa)
Na casa deles, Paulo e Rose, sempre fui recebido com carinho e, mesmo diante de hiatos de mais de um ano, nunca deixei de ser tratado com toda naturalidade. Sempre que a coisa apertava para o meu lado, corria pra lá, onde encontrava cama, café, cigarros, chuveiro quente e abrigo. Minhas tocas (ou rotas de fuga) sempre foram a casa de Paulinho e a casa dos meus padrinhos, independente do quão fodido eu estivesse.

Thiago / Iva / Dindo / Paulinho
Muito me escapa durante esse exercício de captura e que consiste em relembrar o máximo possível de uma pessoa e reconstruí-la a partir de peças gastas. É difícil montar uma pessoa assim, de cabeça, ainda que essa totalidade planejada seja apenas um recorte, e que o projeto em si não seja ambicioso. Como retratar uma pessoa que, como todas as pessoas que fazem parte do mundo a partir do outro, não são mais que uma construção, uma construção peculiar, montada de partes desconectadas e reorganizadas a cada lembrança? Como toda uma existência que não precisa, em absoluto, ter uma equivalência de partes entre o que é subjetivo e o que é fidedigno pode ser traçada?
O que a visão de uma pessoa ou a memória que temos dela têm da pessoa em si?

Paulinho / Papai
Em última análise, partindo de um ponto de vista objetivo, nada. Não é possível capturar uma pessoa em sua essência, mesmo que superficialmente. Uma fotografia possivelmente mais e menos verdade sobre uma pessoa do que uma frase qualquer que ela tenha dito e da qual lembramos. Ao mesmo tempo, o contrário também é verdade, de um ponto de vista subjetivo: toda essa construção dele que só existe em mim, é real, vívida e pulsante, com mais camadas de materialidade nos meus gestos do que a luz impressa no papel.
Mas essas pessoas que em parte existem no mundo, em parte em nós, em nossa visão, algumas delas nos definem, como nossos amantes, nossos amores, essas pessoas definem nossas rotas a partir da colisão. Tem um trecho de uma série que gostei muito e queria muito que Paulinho tivesse assistido que fala um pouco disso, o trecho fala de amante mas estrapolo aqui para pessoas:
“Conhecemos alguém e nos apaixonamos e, quando nos separamos, eles nos deixam marcas, para que lembremos de sua passagem.
Nossos amantes nos esculpem. Eles nos definem, para melhor ou para pior.
Como num ‘pimball’, colidimos com eles e seguimos na direção oposta, impulsionados pelo contato.
E após a separação, podemos ficar marcados. Porém mais fortes. Ou mais frágeis, ou carentes, ou zangados, ou culpados. Nunca é imutável. Nossos amantes permanecem dentro de nós como fantasmas assombrando corredores e quartos vazios. Às vezes sussurrando. Às vezes gritando. Invisíveis, mas sempre ali”
(Being Human – Ep. 5)
Quando penso em cenas soltas, tenho certeza de que aqueles poucos anos, até os meus 14, foram anos felizes. Eu lembro do cheiro da casa, dos cães, das paredes de pau a pique, do cigarros sem fim, da sanduicheira e do cheiro do meu primo, que lembra muito com o cheiro de Rodrigo.
Quando éramos adolescentes, Rodrigo e eu, vivíamos juntos. Éramos inseparáveis e certo dia, falei: você tem um cheiro engraçado, parece o cheiro do meu primo. Ele: e ele cheira bem?, ao que respondi: Não muito.
Não era um fedor, definitivamente, mas um cheiro peculiar, acre. Rodrigo também é uma dessas pessoas que me esculpiram.
Paulo Hermida, o Hermida lá na prefeitura. Lembro da gente sendo expulso do toboágua, de voltarmos de bugre de Ponta Negra debaixo de uma tempestade, sem capota, encharcados, um vento e um frio de matar; lembro dele me ensinando a andar de moto e do meu primeiro tombo, lembro da risada e dos sons daqueles anos e lembro dos cômodos da casa dele.
Lembro de irmos atrás do ET de Varginha, de como ele idolatrava vovô (que era uma pessoa horrível), lembro dele lendo uma carta de reconciliação que escrevi para o meu pai e que só soube que meu pai ainda a guardava porque, segundo Paulinho, ele mostrava no bar de tempos em tempos para ele quando estava emotivo. Lembro de Paulinho me falando: se eu tivesse um filho, e ele me escrevesse aquela carta, eu estaria tranquilo de que acertei alguma coisa.
Eu não faço mais ideia do conteúdo da carta e nem o porquê da briga, mas saber que de, certa forma, alguma coisa feita por mim tinha valor para eles, me deixou contente.
Lembro do 11 de setembro, e de, à tarde, estar na casa dele, era seu aniversário, faríamos um churrasco. Nesse dia, herdei a XL. Lembro da última vez em que o vi, foi no Centro, em frente a Sabiá Discos, combinamos dele ir pra casa de papai no carnaval, levar a Paulinha.

A XL herdada (precisando de mais que um banho? Sim)
Lembro de quando a Paulinha nasceu e de como, instantaneamente eu me apeguei a ela, desejando ser um dia, pra ela, um pouco do que ele foi pra mim. Vejo muito dele e, às vezes, de mim, na Paulinha e isso me traz certo alento. Quando ela nasceu, temporã, rapidamente se tornou o centro do mundo dele. Quando ele partiu, se tornou o centro do meu.
-Sempre penso no tempo nesta época do ano. Não seria maravilhoso se pudesse escolher a velocidade com que o tempo passa? Escolheria uma bem lenta para o crescimento de minhas filhas. Faria o outono durar mais e o inverno durar menos. E, quando sentisse arrependimento, faria o tempo ir mais devagar para consertar as coisas e não mais me arrepender delas. (…) Queria saber quanto tempo me resta. (“Millennium” Midnight of the Century)











Paulinha e eu + Lucas + tia Leir
Quando Paulinho morreu, de repente, aos 40 e poucos anos, me ligaram da prefeitura, onde ele trabalhava. Achei que se referiam ao pai dele (“o Paulo Hermida faleceu”, “Titio?”, “O Hermida, aqui da PMN”). Eu nunca imaginei que Paulinho pudesse morrer.

Depois de ajudar com as crianças, fiquei no cemitério cuidando de uma burocracia cruel, e passei a noite lá, velando seu corpo até titio chegar, pouco antes do amanhecer, silenciosamente. Titio olhava pra ele de cima, com se olhasse para si mesmo num espelho d’água. Eram tão parecidos que eu jurava estar diante de um espírito. Perguntei, achando que falava com o fantasma: O que eu posso fazer? e titio: “Como assim? Como assim ele foi primeiro?”
Como assim? Como assim ele foi primeiro?

Eu / Paulinho