Anamnese

Mais ou menos um mês atrás, no dia 3 de abril, acordei por volta das 5 e pouca da manhã — ou talvez 6 e pouca, não tenho certeza — pensando no meu pai.

Não se tratava de um ou mais pensamentos específicos ou de cenas reconhecíveis, mas de um amontoado difuso de imagens, sons e sensações, todas embaralhadas pela letargia de quem acordou, -mas não muito-, e tenta com esforço, — mas não muito -, separar, com as mãos, as camadas de realidade sobrepostas abruptamente às camadas essenciais que compõem o sonho e o sono.

Nosso primeiro café do dia, o que tomamos juntos antes do começarmos a trabalhar, é para mim como uma âncora, é o que me impede de ser arremessado para longe com os ventos que mudam o tempo todo ao longo do dia. E, quando trazia comigo nossas canecas, carregava um peso estranho no peito, a mesma sensação que, desde a cama, se arrastava comigo.
Foi quando Cíntia me perguntou se estava tudo bem.
“Estou triste, acordei pensando no meu pai”, respondi e, enquanto falava, percebi que seria seu aniversário e, sabe-se lá o porquê, agi como se tivesse pensado nisso antes e não somente naquele instante mesmo. Talvez tenha agido assim para tentar simular uma linearidade entre causa e efeito em minha cadeia de pensamentos.
Ao longo do dia, no entanto, meu incômodo que, inicialmente se mostrou difuso foi ganhando forma e, infelizmente, na medida em que se desenhava, desenhava também meu humor, que foi azedando.

É curioso observar como o alarde da ausência imposta pode, em muitos casos, tornar evidente uma ausência que, ignorada, já era real, palpável e significativa.
Como no caso, por exemplo, de um velho que já perdeu para a morte o convívio de alguns dos seus chegados tendo nessas mortes o aviso constante do próprio tempo que se esvai, e muitas vezes busca espremer ao máximo o convívio com o jovem filho, neto ou sobrinho, que, por sua vez, tendo a morte apenas como fato racional e, ao mesmo tempo, abstrato e distante, em suma, o jovem que ainda não tendo sido experimentado pela morte, não é capaz de compreender a urgência de quem se sabe sem tempo o tempo todo e, só depois, quando o momento passou, se contorce através da lição inevitavelmente aprendida e impossível de ser repassada.

A ausência definitiva imposta pela morte não soterra os momentos passados, pelo contrário, muitas vezes reaviva-os em novas cores.
O que ela traz de fato é a impossibilidade de novos momentos, nos roubando apenas um futuro impossível, nunca o passado, portando, em suma, a morte nãos nos rouba absolutamente nada além do “se”.
No entanto, sua intangibilidade aparente é permissiva, e é através dela que nos permitimos deixar coisas pelo caminho, como se pudéssemos, depois, a qualquer momento de nossas vidas, simplesmente dar uns passos pra trás, em direção ao passado, a fim de recolhermos o que deixamos cair por descaso ou preguiça. Mas o tempo não funciona como uma plataforma de trens através da qual podemos ir e vir mediante a apresentação de um bilhete, não, não, ele está mais para um trem que já partiu e no qual somos passageiros que ignoram tanto a velocidade com a qual ele se desloca quanto o fato de que não haverá parada senão a próxima.

E, aproveitando que falo sobre o tempo, hoje nos encontramos há uns 40 dias em quarentena e, desde o início do período, vejo meus amigos, — que não via -, realizando esforços para que enfim nos vejamos através das telas que já há alguns anos estão em nossas mãos, e que nos afastaram um pouquinho na mesma medida em que abriram um mundo minúsculo e infinito diante de nós. Agora, no agora, é como se um estalo ou uma sirene evidenciasse a descoberta das bordas e da finitude ou, como se a simples imposição de uma distância que já se encontrava ali, demarcada, medida e pesada, de repente, iluminasse os muros construídos sobre as escolhas individuais que fizemos mas… mas que poderiam ser desfeitas, não? E podem, não? Afinal, não, nunca foram escolhas de fato.

E desse amontoado de coisas eu tiro o seguinte: a vida vem e se impõe; a morte vem e faz o mesmo, afinal são gêmeas indissociáveis.
No entanto, apesar da natureza impostora, a possibilidade da morte, — e a vida através da qual ela pode ser enxergada -, age ao mesmo tempo como espelho de ambas, vida e a morte, sendo nenhuma delas em essência e apenas denunciando o que ambas impõem, como uma fresta entre mundos.

Bem, além da habitual divagação, posso também estar superestimando todos esses movimentos, pode ser que parte de nós esteja apenas encarando pela primeira vez a impossibilidade e o tédio, a prisão que pode ser estar só consigo mesmo — ainda que com outros — e, como crianças, estejamos apenas querendo sentir novamente o sabor do doce que sairá de linha em breve e que tivemos tantas vezes nas mãos sem nunca dar muita atenção ao que havia ali além do gosto predominante do açúcar porque, por mais que neguemos, a composição era basicamente açúcar mesmo. Vá saber. Espero que não.

Mas, por favor, não me levem a mal, não estou reclamando dos meus amigos ou julgando-os a partir de uma lente arranhada e desfocada por qualquer que seja o motivo, até porque faço parte do balaio. Vejam só, eu mesmo havia acordado achando que meu mal-estar se dava por conta do aniversário do meu pai morto quando o caso é que esse fato não foi mais do que um lembrete de outras coisas, o fio de um colar de contas.
Creio que talvez tenhamos percebido o tempo tardiamente, da mesma forma como uma criança percebe o mar: tendo nadado impunemente até depois da arrebentação e se vendo diante de uma série de ondas que se agigantam adiante e, incapazes de um regresso à segurança da terra, nos resta, como à criança, tomar o máximo de fôlego possível antes de mergulhar na escuridão a fim de atravessar essas ondas, uma a uma, gritando, de tempos em tempos, na tentativa de avisar que continuamos nadando.


Originally published at https://nadadeimportanteaconteceuhoje.com on May 11, 2020.


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