O início e o fim: ou O corpo, a prisão, a morte: um número

19 de julho, 2019.

O corpo

Há quase 11 anos atrás, um amigo, Renato, me presenteou com o livro As aventuras do senhor Pickwick, de Charles Dickens. Segundo ele, — Renato, não Dickens -, escritores (ou aspirantes a escritores) precisavam, obrigatoriamente, ler grandes escritores e eu, como se podia imaginar, nunca havia passado perto de Dickens, que acabou por se tornar um dos meus autores favoritos. Naquela época, acho que por vaidade ou ingenuidade, arriscava escrever alguma coisa de prosa, nada com muita substância, mas vá lá, vá lá.

Pra ser honesto, acho que aquele o foi período mais complicado pelo qual passei; eu ainda não tinha aquela resignação que vida adulta desperta em algumas pessoas e que, posteriormente, adquiri e, por conta dessa ausência, incorria em inúmeros erros de julgamento e definição de prioridades. Bebia muito também, o que não me ajudava de maneira alguma nem no julgamento, nem na definição de prioridades.

E, como de costume, estou divagando, evitando o assunto que me trouxe aqui.

“O corpo! Esse é o termo legal para a massa turbulenta e irriquieta de cuidados, ansiedades, esperanças, afeições e mágoas que constituem o homem vivo. “

Em algum ponto entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina, num ônibus de viagem, já quase dormindo, me deparei com essa frase no livro que havia ganhado de presente e há meses enrolava para começar.

Fui imediatamente tomado por uma sensação de desconforto, um déjà vu constante e incômodo que trazia, ao mesmo tempo, o cheiro do meu uniforme do jardim de infância e um outro que, apesar de indescritível, me embrulhava o estômago. Reli a frase, fechei o livro, os olhos e busquei me concentrar nos cheiros e cavar as lembranças que a eles remetiam. Não demorou muito (ou talvez tenha demorado) para ouvir a voz do meu pai dizendo algo muito parecido com a frase que, na incerteza, atribuo ao personagem Sam Weller.

“Cheiro de sangue velho” — Papai sempre resmungava isso quando passávamos em frente ao necrotério e, preciso concordar, trata-se de um odor bem peculiar e desagradável.

Foi em 2008 que me lembrei de ter sido esquecido, aos 5 anos, por meu pai no IML, onde ele tinha negócios do tempo em que trabalhou como perito criminal. Ele tinha umas coisas para resolver com o “pessoal da perícia” e me pediu para esperar no saguão, mas eu, conhecido, vigiado e, justamente por ser conhecido e ter os olhos de todos sobre mim, fui negligenciado, acabando por entrar impunemente numa sala de autópsia, onde me deparei com um corpo em decomposição. E ali fiquei, estático, olhando, tão oco quanto o indivíduo semicoberto, até ser retirado à força do meu devaneio pelo puxão de papai que disse algo como “aquilo é um corpo e não tem nada com uma pessoa viva, não é nada”.

Lembro de papai ter me pedido para não falar nada sobre isso com mamãe e de ter atendido prontamente em troca da importância que atribuia ao fato de ele estar me pedindo algo, eu, que como criança também não era nada, como reiterava meu avô ao dizer que “velho, criança e cachorro não têm querer, é o que tem na mesa”. Ele mesmo, velho, e cheio de quereres.

A visão do corpo me pertubou e não dormi naquela noite.

A prisão

É interessante como poucas coisas tem tal poder sobre nossa angústia quanto tem a noite. Anos mais tarde, numa outra noite insone, lembrei-me, sem mais nem menos do que foi uma das cenas mais perturbadoras que já vivi.

Eu devia estar com uns 9 anos e acompanhava papai numa sexta antes de irmos para Piratininga, onde me encontro no momento (quase 30 anos depois) e onde, naqueles dias, passávamos os finais de semana sob sua tutela. Caminhávamos com ele da escola, perto da rua São João até a Perícia, onde o carro ficava estacionado. No geral, chegávamos, entrávamos no carro brigando pela janela, meu irmão e eu, e seguíamos para cá. Mas, naquele dia, não lembro o porquê, não tive aula e estava acompanhando papai em suas andanças pelo Centro enquanto não dava a hora do meu irmão sair da escola e um cliente dele encontrava-se “encarcerado”, como dizem.

Por alguma razão que desconheço, papai me levou com ele para falar com o tal cliente. Não me lembro da cara dele, soube anos depois que se matou por não suportar a culpa de ter cometido um assassinato. Sei também que depois disso papai passou a atender somente no cível e nunca mais quis nada com criminal. Bem, mas tudo isso eu soube anos depois.

O que me lembro daquele dia foi de atravessar a detenção com meu pai me puxando pela mão e da gritaria daquelas pessoas enjauladas e enfurecidas comigo, que era livre, em muitos aspectos, por ser uma criança. Aquilo foi pior do que os cadáveres com os quais tive que lidar ao longo de todos esses anos.

A morte

E o que seria a morte além de um tema recorrente?

Quando a morte acaba? No fim do copo? Do corpo?

É fácil unir essas palavrars: morte, corpo, prisão. São palavras que realmente se intercalam com facilidade. São palavras, e palavras são diferentes de números, estes se encerram, autônomos, em si mesmos.

Ontem eu vim até aqui de moto para assinar a exumação do corpo de papai. A foto tirada na estrada enquanto conversava sobre a venda da moto (e — ainda — não postada) não carrega nada disso.

Eu vim exclusivamente para isso, para um trâmite legal sobre realocação de um corpo. Na verdade, meu irmão deixou na minha mão decidir o que fazer com o corpo.

Tome, Dr., esta tesoura, e… corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Budismo moderno era um dos sonetos que sempre recitávamos e, hoje, decidindo sobre o que será do corpo, decidindo o que farei daqueles restos que “nada têm com a pessoa” de outrora, penso que falhei. Falhei pelas circunstâncias e por não ter corroborado a corrupção intrínseca que nos assola. Podia ter molhado a mão do administrador e conseguido o túmulo entre a lagoa e o motel que, segundo papai, é onde ele estaria bem, podendo fazer as duas coisas que mais gostava (e descrevia ambas como “pesca”). Mas aquele cemitério está interditado e ele não está lá, nem no lote temporário que ocupa, tampouco aqui e, justo por estar presente nesses espaços, talvez agora eu possa, sem culpa, deletar o evento de sua morte da agenda. Talvez, para mim, sua morte enfim tenha se completado.

Um número… 991

Um número.
Há um para cada vida que já existiu ou existirá.
(…)
E hoje, olhando para o céu [ de minha infância ] que olha de volta para mim, quero saber qual deles sou eu.
Eu preciso saber.
Este é o início da jornada…
ou o fim?



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