Uma sala sem vista: um texto sobre não ter filhos

É provável que eu já tenha comentado em alguma publicação o fato de que meus avós eram primos de primeiro grau. E é igualmente provável que eu tenha vinculado essa informação ao fato de que meu irmão e eu reprovamos o psicotécnico do DETRAN. Duas vezes cada.

No caso de eu não ter comentado isso antes, fica a informação como justificativa ou nota informativa sobre a mensagem que meu irmão me enviou esses dias, alarmado, e cuja única base talvez se justifique numa manifestação de apofenia, coisa bem comum entre nós também.

A mensagem era sobre nossos padrinhos, mais especificamente sobre minha madrinha que, segundo meu irmão, estava escondendo um câncer. Ele chegou a essa conclusão baseado no fato de meu padrinho ter mencionado fisioterapia (que ficou claro, depois, que ele está fazendo por causa da coluna) e enjoo (que ela vem sentindo) por causa da medicação (iodo) após remoção da tireoide. Em resumo, meu irmão dava por certo que tratava-se de uma tentativa dos meus padrinhos em disfarçar uma suposta quimioterapia.

Quando meu irmão me enviou suas inferências via WhatsApp, eu imediatamente fui contaminado com a certeza de que minha madrinha estava caminhando para uma morte lenta e dolorosa e que meu padrinho seguiria logo atrás por ser impossível para ele existir sem ela. Bem, isso e o fato de lhe faltar uma rede de apoio, tendo em vista que todos os seus grandes amigos estarem enterrados, apesar de ele ser o mais velho, contando 86 anos atualmente.

O terrível quadro já estava vivo em suas cores opacas e traços pesados num instante. Essa imagem me foi fácil de conceber pois, desde muito cedo recorri a ela em ocasiões nas quais me era necessário chorar. Como num enterro de um tio por quem eu não nutria muita simpatia, por exemplo. Em ocasiões como essa, recorria então ao que me seria mais doloroso de imaginar e essa imagem consistia no dia em que um dos dois morresse e fosse seguido pelo outro.

Diferente de mamãe, que me prepara para sua morte desde os meus 6 anos de idade, ou de papai, cuja a morte em vários momentos da minha vida teria sido, de certa forma, profética, a morte dos meus padrinhos, embora tangível e inevitável, como toda morte, me parece dilacerante por conta da doçura e do tipo de amor com que sempre me presentearam, um amor gratuito, puro e incondicional, sem sangue (porém mais forte que este). Em suma, por conta desse tipo de amor que nunca mudou, o evento de morte de um deles sempre me veio sem nenhuma barreira que pudesse amortecer a dor que virá desse advento.

Desde que nasci, meus padrinhos atuaram como pais para mim, eles nunca puderam ter filhos, e isso era o que eles mais queriam, portanto, desde muito novo, toda lembrança que me remete a uma família está intrinsecamente ligada à casa deles e à maneira como eles construíram a impossibilidade de um filho em torno de mim e, posteriormente, do meu irmão, cujos padrinhos originais nunca foram muito presentes.

Minha mãe trabalhava muito, chegando a manter 3 empregos depois da separação, e meu pai nunca teve, nem de longe, a mais breve noção do que poderia representar a paternidade: ele gostava da ideia de ter filhos, mas nunca compreendeu a ideia de ser pai.

Portanto, na casa dos meus padrinhos, quando criança, me sentia à vontade para ter medo à noite e correr pra cama deles, coisa que jamais arriscaria com minha mãe, que provavelmente iria me fazer revirar aquele medo até estar convencido da falta de sentido daquilo.
Todos os rituais na casa deles eram calmos e ordenados, lá, acordava com meu padrinho para ir comprar pão enquanto minha madrinha preparava a mesa de café. Almoçávamos juntos (coisa que nunca fizemos em casa) e, por conta de todas as pequenas coisas, mesmo na adolescência ou no início da vida adulta, sempre que alguma coisa me fugia ao controle, era pra eles que eu pedia socorro. Bem, para eles e para meu primo Paulo, por quem sempre nutri uma adoração fraternal e cuja casa me remetia também a um lar, embora de um tipo diferente, algo mais como um abrigo.

E, hoje, durante o banho, pensando em como sou estúpido ao me deixar guiar pelas loucuras que se desenvolvem no fertilíssimo espaço entre as orelhas de Thiago, me pus a pensar na minha própria morte e no buraco que pode ser criado pela falta de crianças.

Julgando pela minha própria infância — e somente por ela — as crianças são como a farinha, dando liga aos diferentes núcleos e rituais familiares. Tínhamos a casa de papai constantemente cheia quando crianças, mas, na medida em que ganhamos a rua, não vimos a casa esvaziando, nem os natais perdendo as cores infantis, e o sentimento de urgência na tentativa da antecipação se esvaindo por outras expectativas; e à medida em que crescemos, até as comidas foram perdendo os sabores do quais sinto saudade hoje.

Quando papai morreu, meu irmão e eu nos abraçamos pela primeira vez, sua filha acabara de nascer e seríamos vizinhos, talvez pudéssemos repopular ao menos os natais. E nisso encontrei um pouco de conforto. Mas o caso é que, apesar de contarmos um com o outro, devido à criação que temos e as configurações familiares que nos definiram, nos é impossível uma proximidade real.

Sempre fui muito próximo dos meus amigos de adolescência e durante meus anos de formação, o pós-ceia (ou pós-natal, como dizíamos) foi na casa de Naka, rumávamos pra lá saindo de diferentes pontos da cidade tão logo os ritos natalinos oficiais fossem cumpridos. Naka é um grande amigo que, como a maioria dos meus grandes amigos, não tem filhos.
Aguines e Jorge têm Gael, mas a vida nos distanciou (ou eu me distanciei). Verônica e Marco já me apareceram com o Léo adolescente e Rodrigo e Júlia, há um ano, tiveram o Eric, mas vivem na Nova Zelândia e, embora me sinta mais próximo do filho deles do que de minha sobrinha, e nossa relação de intimidade tenha mudado muito pouco ao longo dos anos, temos mais de um oceano entre as nossas casas.

Um observação: para não ser injusto, tenho alguns protegidos que considero como irmãos mais novos e por quem nutro um carinho especial, Léo (aliás, parabéns pela UERJ, Léo!), Vitor, Lucas e Paula (que me é cara como uma filha), mas estão todos na idade de viverem as próprias vidas e eu, numa relação análoga a de papai com a paternidade, talvez não saiba exatamente o que é ser um irmão.

Fui enumerando todas essas conjecturas durante o banho até chegar ao dia de hoje.
Cíntia e eu nos casamos há uma semana e não pretendemos ter filhos além dos gatos (e talvez um bode, umas galinhas e um cachorro). Estamos construindo o que serão nossas tradições familiares ao mesmo tempo que traçamos planos para um futuro que esperamos sem muita pressa, juntos, lidando com as coisas somente na medida em que elas acontecem, certos um do outro.

Mas, ainda assim, não consigo deixar de pensar no que será feito de nossas coisas quando Cíntia e eu não estivermos mais aqui. E se, como meus padrinhos, formos os últimos do nosso bando? Alguém vai guardar nossas fotos de infância? Se por acaso, sim, elas encontrarão algum eco?


Originally published at https://nadadeimportanteaconteceuhoje.com on June 1, 2019.


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