A metamorfose

“Vem-me a idéia de contar as formas mudadas em novos corpos. Deuses — pois também vós as mudastes -, inspirai a minha iniciativa e, da primeira origem do mundo, guiai ininterrupto o meu canto, até o meu tempo.”
(Públio Ovídio Naso — Metamorfoses)

Certa vez, enquanto falávamos sobre Kafka, A Metamorfose e sobre envelhecer, a Cíntia me mostrou o artigo The Beetle and the Fly, de David Cronenberg, que inicia o texto falando algo como “acordei e me vi um homem velho de 75 anos” e fala sobre sua própria metamorfose a partir desta constatação.

É curioso porque lembro de conversarmos bastante sobre o artigo e seus paralelos, sobre encarar o espelho num dia comum e, de repente, perceber que já não se tem mais vinte e poucos anos e como essa percepção pode ser surpreendente e impactante, como a ruína causada pelo tempo, que rói tão gradativamente, pode se mostrar evidente num domingo ou numa terça, sem aviso e sem que nada de fato tenha mudado de um dia para o outro. Obviamente não somos velhos, eu caminho para os 37 e, creio, a marca externa mais evidente da passagem dos anos no meu rosto foi a perda da elasticidade na testa que sempre franzi e agora não desfranze em alguns pontos, formando uma linha levemente amassada, como se feita de cera e banha, sem aquele contraste respeitável atribuído a traços fortes de personalidade. Não, essa linha na minha testa está mais para algo que cansou e ficou por ali mesmo, debaixo de sol.

Desde ontem não tiro isso da cabeça e já deitado, enquanto o sono não vinha, fiquei tentando estipular quando comecei a notar essa perda de elasticidade e, como o sono demorou pra vir, consegui remontar um trajeto de sintomas que sempre ignorei ao mesmo tempo que tinha ciência deles.

Treinei Tae Kwon Do regularmente por anos. Anos que se localizavam ali entre o final da adolescência e o início da vida adulta e lá pelos 25, reparei no início do processo e, como qualquer pessoa razoável e que se encontrava num ponto da vida em que tinha mais adolescência nas costas do que vida adulta, preferi ignorar os sinais que foram se acumulando até o último sábado.

Até chegar aos 24, 25 anos, eu fumava, bebia e lutava. Logicamente que nas ocasiões em que eu maneirava, geralmente em semanas de treino mais intenso para campeonatos, bem, nas semanas em que eu maneirava no cigarro e na bebida, tinha um rendimento melhor, mas isso em nada tinha a ver comigo, apenas com a minha vontade e uns pequenos sacrifícios, diante dos quais meu corpo respondia tanto em resistência (cigarro) e quanto para os reflexos (bebida). Se ocorresse de eu ficar uma semana sem treinar por causa dos dois empregos ou da faculdade, no mesmo período de uma semana, recuperava a velocidade, resistência e alongamento. E isso foi verdade até deixar de ser.

De repente, me vi penando para conseguir me alongar, pra conseguir desferir a mesma quantidade de chutes e socos na velocidade que, achava, era a minha (e não poderia me ser tirada), e, para cada semana sem treinar, o tempo para chegar perto do que eu era 1 mês antes, passou a variar entre 2, 3, e até 5 semanas, daí ocorria algo que me faria ter que faltar novamente a alguns treinos e a coisa ia se agravando e aquela marca que eu acreditava fazer parte do que eu era, passava a figurar mais como uma lembrança, e eu como uma versão piorada de mim mesmo, até que cansei de encarar essa sombra opaca e assumi que não tinha mais tempo pra me dedicar ou tentar me manter no nível ao qual me habituara.

Dizem que um corredor, quando jovem, tem explosão e velocidade e que, com o passar dos anos, o foco passa a ser resistência e controle para maratonas. Eu ainda me considerava jovem e não me importava com o que quer que isso pudesse signifcar.

Aqui coloco a minha primeira marcação de trajeto e parto para a seguinte.

Já por volta dos 30, tive meu primeiro apagão alcoólico. Aconteceu numa quarta-feira, bebendo com os amigos (como era ritualístico das quartas). Mas alguma coisa em mim quebrou naquele dia. Acordei sem fazer ideia de onde estava e nem do que tinha acontecido. A sensação de angústia e desespero causadas pelo esquecimento se tornaram marcas recorrentes nas minhas ressacas posteriores. Após essa fatídica noite, eu posso quase que dar por certo que, mesmo não bebendo muito, algo vai se perder, alguma conversa, cena, qualquer coisa. Meu cérebro perdeu sua aderência às memórias ali. Nesse mesmo período, por alguma razão comecei a ter dificuldade para me localizar temporalmente também e acredito que sejam perdas correlatas.

Contam que eu estava particularmente divertido naquela noite, nunca saberei ao certo, o que sei é que minhas ressacas também foram se intensificando e, se antes, depois de uma noite mal dormida e 4 horas de molho com enxaqueca, eu poderia já me considerar pronto pra outra, por assim dizer, agora, o que me restou foi um tipo de ressaca que ressoa por até 3 dias, permeada de angústia e fragmentos assustadores que me corroem ainda que eu tivesse apenas apagado assistindo vídeo-clipes da década de 90.

E como nada disso se mostrou suficiente para me impedir de beber até poucos anos atrás, passei a conviver com medo de mim mesmo, afinal, não sabia o que tinha feito, e isso sim surtiu algum efeito, ao menos o bastante para eu procurar ajuda profissional.

Então temos esse balanço de perdas que se iniciam, a perda da capacidade elástica para o corpo e a perda da capacidade aderente para a mente. São caminhos sem volta, provavelmente, mas isso não me tira o sono e nem incomoda desde que a máquina continue em movimento (e quando parar, não vai ser como se eu pudesse me importar de qualquer forma). No entanto, temos aí o último sábado, que foi 2 semanas atrás e ao qual me referi de maneira bem confusa em algum momento acima.

No último sábado — que é como pretendo me referir a ele daqui pra frente — , no último sábado a Cíntia estava trabalhando e fui ao mercado logo de manhã, no mercado e na loja de ferramentas, fui comprar não sei o quê, acho que velcro industrial, mas isso não importa, o caso é que fui pra rua e voltei para casa como era de se esperar e, ao entrar na portaria, me vi no espelho enquanto caminhava na direção do elevador. Uma invenção do próprio demônio, o espelho.

Trata-se de um espelho que cobre toda a parede, 3x2m aproximadamente e, como se estivesse me vendo pelo canto do olho, reparei no meu andar e ele está um pouco mudado. Eu já não levanto tanto os pés do chão para andar, às vezes arrasto minimamente as laterais internas do pé e isso é novo.

Por conta de um problema crônico no tornozelo, eu ando com cuidado há uns 20 anos, daí o fato de eu saber muito bem como eu ando. Fora isso, eu ando olhando pros meus pés durante grande parte do tempo.

O que eu vi no espelho no meu caminhar com as sacolas, acredito, foi um vislumbre do que o Cronenberg descreveu ao encarar seu próprio reflexo. O que vi de relance foi o que se tornará meu andar lá na frente, quando a metamorfose for evidente. Por mais inacreditável que isso possa parecer, por uma fração de segundo, no arrastar das sandálias, no final do espelho, eu vi o andar de um velho. Um velho ainda em gestação, mas ali estava todo o cansaço futuro, toda a perda intensificada e todo o trajeto da maratona. E isso me impactou mais do que os primeiros fios brancos, a linha na testa ou flacidez que se precipta aqui e ali.

É uma experiência estranha se reconhecer num estranho. Se reconhecer num reflexo que, apesar de te encarar de volta no espelho todos os dias, se mostra reconhecível, mas não seu, ou não exatamente de como você se lembra dele de dois dias atrás, ainda que tenha se passado uma década nesse intervalo.

Bonus track:
Read This Very Short Story About An Aging Werewolf
https://www.buzzfeed.com/lincolnmichel/read-this-very-short-story-about-an-aging-werewolf?utm_term=.jjXzjmRLB#.ei59XR8l3


Originally published at https://nadadeimportanteaconteceuhoje.com on April 15, 2019.


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