A meia-noite do século: uma noite de natal

O solstício, a saturnália, a passagem de um cometa 2000 anos atrás ou a congregação de uma aliança forjada em sofrimento e assegurada pela indiferença.

A morte espreita e respalda toda mudança através das linhas traçadas por suas fronteiras.

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Esse é meu segundo natal sóbrio e, por sóbrio, não quero dizer abstêmio, mas lúcido. Lúcido e ofuscado por essa lucidez que, serena e silenciosa, range como uma janela emperrada pela ferrugem.

No escritório, ao meu redor, paz. Cíntia lê atrás de mim na cadeira de balanço enquanto tento escrever algo tendo um copo de rum com gelo à minha esquerda. Embaixo da mesa, e por toda a casa, os gatos transitam indiferentes a todo pensamento que assombra nossa felicidade.

Eu acreditava que meus fins de ano fossem mais tristes, sim, tristes, por conta da minha ruptura com o natal depois de um baixo rendimento escolar.

Eu devia ter uns 13 anos quando fiquei de recuperação e meu pai disse que não adiaria a viagem para a fazenda do meu tio em dois dias até que o resultado saísse. Por conta disso, eu devia ficar e tomar conta da casa durante as festas, cuidar dos cães do meu primo e me virar com o que tinha: água, macarrão, um pote de ervilhas em conserva e uns pedaços de frango congelado. Haviam inúmeras garrafas de bebidas e eu comecei a beber pra valer naquele natal e nos posteriores. Maços de cigarro também compuseram minha ceia dali em diante, e minha tradição natalina passou a resumir-se em tomar conta da casa e me embriagar ouvindo os discos do Iron Maiden.

No entanto, diferente do que eu cria, o rompimento com as tradições natalinas não ocorreu ali, mas um ano antes, no ano em que um dos meus tios morreu.

Esse tio, Toinho, teve um papel crucial no meu desenvolvimento, apesar de estarmos todos envoltos num ambiente extremamente machista.

Certa vez, ao me ver prendendo um choro de raiva, ele disse: “tudo bem chorar, eu entendo essa raiva”, e acho que foi a primeira vez em que alguém havia dito isso em vez me chamar de maricas ou algo do tipo. Apesar de até hoje eu ter uma imensa dificuldade para conseguir chorar, todo aquele momento, incluindo os cheiros, cores e sensações, permanecem vívidos.

Toinho era um bêbado divertido, doce, barulhento. Fazia questão que comprássemos presentes para as crianças de um orfanato que ajudava e fôssemos pessoalmente lá entregá-los para sabermos sempre quão privilegiados éramos. Também era o papai noel da vizinhança, desfilando naquele pequeno mundo que é o Tibau, tendo um Fusca Java amarelo como trenó e distribuindo presentes para as crianças de lá, no geral, filhos de pescadores que também nos frequentavam ao longo dos anos em que ele esteve presente. Esses filhos que eram nossos mais fiéis amigos apesar da nossa falta de jeito.

Um ano antes de eu ter ficado de recuperação, meu pai e Toinho brigaram. Toinho tinha toda razão do mundo e não existia ponto de vista que justificasse a posição de papai. Todos ficaram ao lado de Toinho e, eu mesmo, não fosse uma criança e tivesse a opção, ficaria. Poucos meses depois do rompimento, ele, tio toinho, foi diagnosticado com cirrose hepática, morrendo ainda naquele ano.

Fomos visitá-lo com Dinda e Dindo, e me recordo do susto ao vê-lo tão magro, com uma caixa torácica que não correspondia àquele corpo, e de suas palavras “sou eu, caralho!”. De alguma forma eu sabia que ele não ia longe e, lembro também, de naquele momento ter revisitado a memória na qual ele me dizia “tudo bem chorar” e de, ainda assim, não ter deixado uma lágrima sequer para ele quando a notícia chegou.

Meu pai havia sido expulso da casa dele quando tentou chegar lá como se nada houvesse acontecido , o que era sua versão pouco eficaz de pedir desculpas por um erro crasso. “Tirem esse homem daqui”, Toinho gritou do leito do leito onde faleceria poucos dias depois, segundo não me lembro quem. Isso aconteceu logo antes do natal.

Hoje, como em todo natal, me vejo diante de uma cena difusa, envolta numa névoa turva, composta de tempos sobrepostos: a paz que temos hoje ceando com vinho e nossos seis gatos e aquele natal, sobre o qual falei logo após assistirmos .

Falei em escrever e sobre minha frustração a respeito de tudo que escrevo e não publico por achar que esse blog mais se parece um obituário mas, enquanto enumerava essas frustrações para Cíntia, pela primeira vez fui capaz de desenhar o porquê dessa inadequação com o natal sem perceber que remontava, ao falar, quem foram, no fim da contas, os animais do meu presépio.

O natal, o primeiro natal sem Toinho, consistiu em uma sequência de cenas tristes. Meu irmão e eu não choraríamos sua morte em função de papai que, por sua vez, tentou emular alguma normalidade como se nada houvesse acontecido , como se um amigo de décadas não houvesse se ausentado para sempre e como se a tristeza que dali exalava não estivesse banhada em culpa, sua culpa, em seu estado mais bruto.

Papai estava embriagado às 8 da noite do dia 24 nos chamando para o quintal, ele havia montado uma árvore de natal com um galho morto de mangueira e algumas tiras de algodão. Vestia um gorro de papai noel surrado e estava também envolto num trapo que um dia fora um lençol estampado e que atraía o olhar para os furos e remendos. Tudo ali, desde os tropeços bêbados à voz embargada e rancorosa com a qual tentava imprimir alguma alegria ao impossível, refletia perfeitamente todos os natais dos anos anteriores.

O que veio depois foram os anos nos quais passei com Bocão aprendendo a beber e, quando as viagens cessaram, a visão de papai dormindo entorpecido pelo álcool com o dia ainda claro.

Cíntia dorme, espero, a despeito de toda loucura que é a avenida Paulista e seu entorno. E eu, quando penso em ontem, quando penso em nossa ceia e nos gatos, e quando penso em tudo isso, me sinto, em grande parte pela cumplicidade que temos, que tudo bem chorar ainda que não chore.


Originally published at https://nadadeimportanteaconteceuhoje.com on December 26, 2018.


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