Etmologia do trauma enquanto evento

Hoje faz um ano desde que papai morreu. Seria, segundo ele mesmo, seu décimo segundo aniversário de morte. Para mim, o primeiro. O primeiro aniversário de todos os demais. Me pergunto se essa conta fecha, se o evento vale enquanto alguém se lembrar dele ou se vale para cada nota de esquecimento, ou, ainda, se no esquecimento é que de fato a morte se concretiza enquanto missão ou realização de um indivíduo qualquer.

Creio que esse primeiro aniversário seja algo de significativo, algo único como é o próprio número 1, algo que, ao misturar-se aos demais, vai tornando-se vulgar. Mas não tenho como afirmar isso, talvez esteja apenas sendo pedante.

One is the loneliest number that you’ll ever do

Assisti recentemente ao One More Time With Feeling, sobre o qual gostaria de escrever algo. Temo, porém, o momento ter passado ou vinho não ter subido ainda. O documentário trata do processo criativo do Nick Cave pós-morte do filho adolescente. [Escrevi e apaguei várias vezes a palavra “prematura” que viria antes de “morte” optando por deslocá-la para cá, afinal, a morte de ninguém é prematura, da mesma forma que é igualmente estúpido crer que alguém “venceu a morte” (stricto sensu). Pode-se chegar perto dela, da morte, mas daí a vencê-la? Absolutamente não. A morte não é uma pessoa, menos ainda uma pessoa sem compromisso.]

O documentário exibe Nick Cave como “um monumento decadente”, sua beleza reside nisso e não mais na potência, todavia, essa beleza guarda a fragilidade das coisas e o desafio do próprio tempo ao qual todo monumento está submetido. Outras duas falas me impactaram de maneira pessoal, mais pelas ideias contidas do que pela estética da coisa em si.

Em dado momento, NC se queixa de estar “sumindo” (sua voz e sua percepção de tempo são suas principais evidências). Não me lembro das palavras exatas, mas ele fala sobre um determinado tipo de evento traumático que destrói (como a própria etimologia de trauma sugere) qualquer possibilidade de linearidade temporal dali por diante. Como se uma mola sempre o puxasse para aquele lugar. Por mais que andemos, o evento vem conosco, algo como um cão, acorrentado a uma pedra, que corre, lembrando-se da corrente apenas quando esta o estanca. Aquele evento passa a ter um caráter definitivo e identitário, arrasta-se o momento mas, mesmo a distância, ele está lá, agarrado a você, irreversível.

No segundo trecho, NC fala sobre como ele e sua esposa, em determinado momento, decidiram, novamente, ser felizes, e de como isso soava como vingança, como reivindicação de um direito que não os cabe mais. Quase um crime contra a própria existência.

Mas estou divagando (pra variar). Voltemos ao foco:

Não lembro o porquê de ter adicionado esse evento à agenda, mas havia uma explicação racional, racional como tudo que rege meu dia, racional e abstrata, como a certeza de um bêbado.

E Ela me perguntou, durante o jantar, “Você sente falta do seu pai?” “Nunca me perguntaram isso. Mas sim, em certos momentos.” Não havia me dado conta de que nunca havia sido questionado sobre como me sentia em relação ao fato.
No que eu estava pensando quando respondi que “Sim, sinto falta de um jogo que tínhamos durante a embriaguez, jogo que consistia em papai começar um soneto e, eu ou quem quer que ele apontasse, continuar a declamá-lo para, ao fim, dizer o período literário (falácia), autor e nome do obra.” Por sorte, no geral, começava-se o jogo com Augusto dos Anjos, só depois vinha alguém como Djalma de Andrade, aí a coisa complicava um pouco por ser necessário contar a história do soneto também
Agora, penso na casa, como ele disse (sobre uma casa que apodrecia), “Quando eu, morrer ela cai!”. E ele morreu, e eu a derrubei (logo após ser também derrubado). E ele está morto, e meu plano era morar lá num futuro previsível, mas aluguei um apartamento em São Paulo, numa rua paralela à Paulista.

A avenida Paulista sempre me impressionou, desde que pisei aqui pela primeira vez, aos 20 anos, e já se vão 15 desde então. Havia, para mim, o mar ou a baía ao fim da Paulista, agora já não há, apesar do meu senso espacial não ter melhorado.

Gostaria que meu pai visse parte do agora e, dessa abstração da qual sinto falta, dos nossos porres e poesias, também. Prosa é entendiante, diria Byron… O que me lembra de uma vez em que um conto meu foi publicado sob pseudônimo. Ele me perguntou: “Você escreveu isso?” Vi um pouco de “vergulho ali”.
Mas, depois de uma garrafa de vinho, sigo procurando por algo de divino no meu gesto (que é vacilante e, portanto, impossível), nada é divino, nem nada perto disso, nem o vento, gelado como só.

Mas eu tentava falar sobre o evento de um ano atrás, falava da morte de papai, do redemoinho que virou minha vida, de minha mão impotente e de outras coisas sobre as quais não tenho certeza. Penso no fato de que, às vezes, vejo seu carro, que herdamos e vendemos, na vaga de sempre.

Ele é o fantasma, “e as coisas, todas elas, encadeavam-se como contas num fio, impossivelmente reais, como num sonho do qual se desperta abruptamente mas, ainda assim, um sonho cujos retalhos dispersos se prendem-se aos olhos e à memória ao longo do dia. Inalcançável em sua totalidade e sentido, mas palpável em sensações”… e às vezes o odeio, com toda minha vontade, que é fraca… e anseio por dizer certas coisas e reviver outras, de certa forma, às vezes, o amo pelas mesmas razões. E quando, virtualmente, refaço o caminho de sempre através do passado para a casa que construí sobre nossos escombros, me deparo com ele, bebendo uma cerveja, sem blusa, na varanda de seu pequeno mausoléu maltratado e o carro está na vaga de sempre.


Originally published at https://nadadeimportanteaconteceuhoje.com on August 14, 2017.


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