• Dissecção – ou Um exercício de recordação sobre o lastro do irmão perdido

    Cima esq.: ? / Lúcia / Dinda / Dindo / eu. | Baixo esq.: Paulinho, Papai, Thiago.

    Ao longo dos últimos meses me surpreendo frequentemente pensando em meu primo, Paulo. Paulinho, pra ser mais justo, uma vez que, como eu, por ter o nome do pai, arrastava o peso do diminutivo.

    Meu primo e eu começamos a conviver por volta do meus 8 anos de idade após termos, meu irmão e eu, voltado a ter contato com papai aos finais de semana, passado um hiato pós-divórcio de mais de ano, e durante o qual, vim saber anos mais tarde, papai alternou seus dias entre orgias e depressão, pulsão de morte e de vida, o que faz todo sentido se tratando dele.

    Paulinho morava na rua de trás e estava sempre lá em casa aos sábados. A relação dele com papai tinha muito mais de uma relação entre pai e filho do que, por exemplo, a que meu irmão ou eu jamais alcançaríamos; e, honestamente, isso nunca me enciumou. Sendo ele uma das poucas pessoas a me tratar como um indivíduo, evitando a demasiada infantilização e o deboche corriqueiro, e por frequentemente dedicar seu tempo a ouvir e responder minhas perguntas mais estapafúrdias, passei a enxergá-lo como um irmão mais velho, um modelo a ser seguido e, isso evoluiu para que eu, em poucos meses de convívio, quisesse ser como ele.

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  • Leituras 2024

    Gostaria de dizer que estou atrasado com essa lista mas, como não tinha prazo e ninguém está esperando por ela, não houve atraso algum, ainda mais se tratando de mim: uma pessoa que nunca se arrependeu de não fazer hoje algo que poderia ser deixado para amanhã.

    Os livros que mais gostei esse ano seguem abaixo ordenados apenas pela maneira como copiei da planilha e, em alguns casos, seguidos de um breve comentário.

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  • Eco

    Recentemente, depois de um adiamento de quase 2 anos, excluí minha conta do Instagram. Não posso dizer que tenha sido uma decisão difícil, racionalmente falando, uma vez que a balança das razões entre manter ou não a rede pendiam sempre, e com muita folga, para sua exclusão.

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  • A grande migração

    E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem — e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente — e você com ela, partícula de poeira!”
     (A Gaia Ciência [Aforismo 341] – Friedrich Nietzsche)

    Connochaetes taurinus calf por David Bygott
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  • Legenda e causas


    É nessa foto onde vivo o que chamo lar.
    Nos devaneios gentis de cada manhã, no desvanecer dos dias e no sopro das noites, na clareza difusa do sono, nos rastros e nas patas (nos travesseiros)…
    É nessa foto onde, em cada vestígio, evoco meu ninho.
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  • Bardo Thödol

    Quando criança, germinava em mim uma espécie peculiar e nítida de vazio. Uma melancolia advinda de uma necessidade de pertencimento que, olhando pra trás, me parece inata e, racionalmente falando, injustificada. Tratava-se, pois, de uma disposição para o amor semelhante à que observamos nos cães, por exemplo. Disposição essa que, desde muito cedo, instintivamente, tratei de tentar esconder junto de minha covardia (ou por causa dela, quem sabe), da mesma forma que alguém, inutilmente, tenta encobrir uma cicatriz sob a palma da mão. 

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